MAIS MÉDICOS, MENOS MIMIMI

30/08/13

Muitos argumentos da classe médica contra a vinda dos médicos cubanos são legítimos.

É óbvio que o governo Dilma lançou este programa com fins eleitoreiros, porque se observarmos bem, ele tem todas as características da maquiagem política que vem sendo feita ao longo dos últimos anos: é um projeto que fica bonito nas páginas dos jornais e estatísticas, mas não resolve o verdadeiro problema infra-estrutural.

É importante atentar para o fato de que o tema saúde pública engloba desde a educação higiênica, passando pelo saneamento básico, até hospitais aparelhados “padrão Sírio Libanês”. Não temos no Brasil nem um, nem outro.

Em Manaus, para citar um exemplo, no mesmo ano em que as obras da ponte sobre o rio negro começaram e que custaram bilhões aos cofres públicos, havia falta de água na maioria dos bairros de periferia da cidade. Há ruas lá que servem de banheiro público aos funcionários das barracas do comércio, as margens do rio em época de seca são um verdadeiro lixão a céu aberto, alimentando urubus, ratos, baratas, cães abandonados e espalhando toda sorte de pragas.

No interior do Estado do Amazonas as condições são ainda piores: cidades onde o esgoto corre a céu aberto para ser despejado nos rios e lagos, onde as pessoas pescam e vivem em suas casas flutuantes, consumindo a mesma água podre sem qualquer tratamento. Cidades que tiveram um crescimento urbano significativo nos últimos anos englobando as áreas de aterro sanitário, sem que as autoridades se movimentassem para mudar o lugar do depósito dos dejetos. Cidades em que o cemitério fica na parte mais alta do terreno, contaminando com chorume o lençol freático, poluindo a água que a população usa para beber e cozinhar, água essa que não vem de nenhuma área de tratamento, mas de poços artesianos que não são submetidos a análises de qualidade pela prefeitura há anos!

Se as condições das principais cidades do Amazonas, do Pará e tantos outros estados do interior são assim, imaginem as condições dos hospitais. Então sim, os médicos brasileiros acertam quando protestam contra o programa “Mais médicos” do governo, porque ele não contempla este cenário de atraso, primitividade e descaso com as questões sanitárias e finalmente com a saúde da população.

 

Porém…

 

Os médicos erram ao protestar no aeroporto contra a chegada dos colegas cubanos.

Seus protestos não deveriam ser direcionados contra os cubanos, mas contra a situação da saúde no Brasil e contra o governo. Os médicos cubanos e sua vinda para este país não são a causa dos problemas sanitários. Os cubanos em breve também experimentarão na pele o que alguns médicos brasileiros já sabem… em breve eles também estarão tirando conclusões a respeito das políticas de saúde do país…

Os médicos brasileiros deveriam aproveitar a vinda desse reforço para dar mais visibilidade às suas reivindicações, mas não na forma de protestos xenófobos e preconceituosos. Deveriam aproveitar a vinda dos cubanos para aprender a lidar com situações de descaso, uma vez que eles são mestres na prática da medicina em áreas isoladas com pouca infra-estrutura. Não estou defendendo que os médicos brasileiros devam aprender como tratar doenças e fazer cirurgias usando apenas paus e pedras como instrumentos, mas é óbvio que a situação da saúde neste país não irá mudar da noite para o dia, principalmente com o governo que aí está, que se preocupa mais com a imagem do que com o conteúdo. Neste ínterim, populações inteiras de cidades e vilas estão sem atendimento, sem diagnóstico, sem encaminhamento… se os médicos brasileiros recusam-se a trabalhar em condições precárias, é justo que protestem contra isso, mas não é justo que condenem aqueles que estão dispostos a fazê-lo. Em suma, é justo que continuem fazendo barulho e exigindo do governo melhores condições de trabalho, mas o que os colegas cubanos têm a ver com isso? Imaginemos um cenário paradisíaco, com hospitais padrão Sírio Libanês nos lugares mais afastados do país, saneamento básico até mesmo nas aldeias indígenas, mas num quadro de falta de médicos, seja lá por que motivos… se o governo decidisse trazer médicos cubanos para trabalhar nestas condições, qual seria a reação dos médicos brasileiros? Então não podemos supor que a reação que vimos nos últimos dias seja apenas uma indignação contra as políticas de saúde do governo, é sim um ciúme de campo, de classe, uma reação típica daqueles que aprenderam muito mal como lidar com as questões humanas, com o preconceito, o racismo e finalmente, com a própria política.

Se querem protestar, o nome do culpado pelos problemas desse país é “Governo” e não “Cubanos”!

Enquanto isso, que os cubanos sejam bem vindos! Gostaria de conhecê-los pessoalmente, de trocar idéias, aproveitar esse intercâmbio cultural ao máximo!

Tomara que consigam diagnosticar e encaminhar os problemas de saúde daquela senhora que conheci num barco sobre o Solimões, que possuía o que ela chamava de “caroços” e a impossibilitavam de caminhar… tomara que consigam diagnosticar o que há de errado com os olhos de um curumim Tenharim que conheci nas margens da rodovia Transamazônica e que não paravam de lacrimejar…

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