REVOLTA JUNINA!

22/06/13

Revolta Junina!

Os Símbolos nacionais e seus significados na “Revolta Junina”.

 

Tem algumas coisas que ando lendo e que eu não estou entendendo, me ajudem! Em 21 de abril de 2001 houve uma manifestação em São Paulo cuja truculência da polícia foi particularmente exacerbada. O motivo da manifestação: repúdio à Área de Livre Comércio das Américas, que então, sob o governo de FHC, parecia ser algo em marcha irreversível. O caráter nacionalista das manifestações foi então aplaudido pela esquerda brasileira. Tá certo que nacionalismo exacerbado é perigoso: não existe raça superior, não existe nada que autorize uma nação a dominar outra, ou a se colocar como liderança em processos culturais globais.

 

O nacionalismo já foi usado como símbolo político no Brasil da Era Getúlio e na ditadura militar. Frases como “Um país que vai para frente”, “Nação verde e amarela”, “O Gigante Acordou” já foram usadas antes, em diferentes contextos, com significados igualmente diferentes. Da mesma forma o Hino Nacional já foi cantado nas mais diversas situações desde que foi criado: de inauguração de shopping center até aquele episódio esdrúxulo da Vanusa…

 

Quando eu era criança, lembro de ter ouvido que o Brasil exportava pobreza. Naquela época o sonho de todo brasileiro pobre era ir morar no exterior, nos Estados Unidos principalmente. Na época era o Ronald Regan o presidente americano e a economia estadunidense ia de vento em popa. Levas e mais levas de brasileiros deixaram o país para ir “fazer a América” nos Estados Unidos. Um dólar conquistado com muito suor lá, valia aqui em torno de cinco a sete reais (na época alguns milhares de cruzeiros). Conheço pessoas que trabalhando duro por lá compraram terrenos aqui e construíram suas casas, compraram carros, enviaram mesada para a família e mudaram de classe pobre para classe média, graças ao dinheiro ganho no Tio Sam.

 

Quando o Lula foi eleito pela primeira vez, o discurso dele era claramente nacionalista, entre outras coisas ele dizia que o brasileiro em geral tinha baixa auto estima e baixa expectativa para si e seu próprio país, mas que sob seu governo ele provaria, para nós e para o mundo, que o Brasil é grande, constituído por um povo maravilhoso, trabalhador, capaz e merecedor. Na época o discurso nacionalista dele foi recebido pelas esquerdas com aplausos, pois o contexto era aquele em que George Bush convocava os países aliados a se unirem em favor dos Estados Unidos contra o terrorismo e suas palavras “Ou vocês estão conosco ou contra nós”, assustaram até mesmo o FHC que adiou a assinatura da ALCA. O Lula não assinou a ALCA e só posso agradecê-lo por isso. O bom nacionalismo parece ser este que surge quando os interesses da nação como um todo estão ameaçados. O mau nacionalismo parece ser aquele que surge quando vestimos a camisa verde amarela da seleção brasileira e cantamos o hino diante da TV antes do início da partida de futebol. Com relação a este nacionalismo já ouvi de tudo, desde Nelson Rodrigues até conversa de boteco, é comum dizer que o brasileiro só tem orgulho de suas origens em época de Copa do Mundo. De fato não temos muitos motivos para termos orgulho de sermos brasileiros. Vivemos num país gigantesco, com riquezas naturais, minerais e paisagísticas de fazer inveja no resto do mundo. Temos liberdade religiosa e exportamos liberdade sexual (os estrangeiros não sabem que as mulheres convivem com muito machismo e violência), mas existem aqui alguns nichos de liberdade e igualdade de gêneros e comparado a outros países, somos uma nação que neste sentido está mesmo em progresso.

 

Recentemente a revolta junina que temos observado trouxe para as ruas o “orgulho de ser brasileiro”, o “hino nacional” e velhas palavras de ordem como “o Gigante Acordou”, “o país que vai para frente” e as cores verde e amarelo da bandeira. Não compartilho o “orgulho de ser brasileiro” em sentido amplo. Tenho orgulho de ser quem eu sou e já que por definição sou brasileira, não seria totalmente errado dizer que tenho orgulho de ser brasileira, mas não é um orgulho nacionalista, é só uma ilusão que me ajuda a ter boa autoestima e não baixar a cabeça para os gringos quando eles vêm para cá e começam a chacoalhar seus dólares na minha fuça querendo me dar ordens. Contudo, devo confessar, no fundo, no fundo sempre quis ter orgulho de ser brasileira neste sentido amplo. Já me peguei invejando o patriotismo e o nacionalismo de outros países, porque sei que estes sentimentos, embora perigosos, também são a melhor defesa contra a exploração desenfreada do capital globalizado. Se amássemos as terras e o povo, se tivéssemos um sentimento de irmandade nacional, não permitiríamos tão facilmente o saque de nossas riquezas minerais e vegetais, nem faríamos projetos políticos que beneficiam somente aos estrangeiros exploradores, como é o caso do Código de Mineração que tem sido atualmente discutido no Congresso e está em vias de aprovação, como é o caso de Belo Monte e da própria Copa do Mundo…

 

Mas o sentimento nacionalista é uma faca de dois gumes. Nas mãos da direita reacionária ele se converte em justificativa para a defesa da “segurança nacional”, dos “valores nacionais” (invariavelmente os valores de quem domina contra os valores dos dominados), contra influências culturais e políticas do estrangeiro de forma tacanha. Neste outro extremo da questão, o nacionalismo torna-se um valor superfaturado que se sobrepõe a qualquer outro e redunda sempre no ufanismo à ignorância. Quando o nacionalismo torna-se o valor mais importante, qualquer estrangeirismo é visto com preconceito, as políticas econômicas não se assentam no compasso do mundo, a violência do Estado come solta. Qualquer ideia importada é vista com desconfiança e os atores que não vestem a camisa verde e amarela, não batem no peito e cantam o hino nacional com empolgação, são vistos como potenciais inimigos a serem preventivamente combatidos, massacrados, expurgados como espinhas indesejáveis maculando a beleza nacional…

 

Tenho visto nesta revolta junina a população bater no peito e cantar “sou brasileiro com muito orgulho e muito amor…”. Não compartilho desse orgulho, mas amo o Brasil. Confesso que não amo o Brasil por considerar no povo brasileiro alguma característica especial que o faz ser mais importante que outros povos, ou mais interessante. Na verdade deploro a cultura à ignorância que se instaurou no país, deploro a religiosidade exagerada, esse cristianismo da mea culpa que nos assola, a falsa caridade das nossas instituições que fornecem os piores serviços como se fossem grandes favores, a aceitação passiva, o lixo cultural que se tornou moeda corrente na mídia, a cultura da corrupção enraizada até mesmo nas situações mais ordinárias e a violência nas relações familiares, de gênero, no trânsito e na bandidagem. Amo o Brasil pelas suas belezas geográficas e pelo seu clima. De resto posso dizer que gosto do futebol, gosto do samba (muito embora ele esteja em extinção), gosto de algumas festas populares e da língua portuguesa, gosto de algumas figuras históricas, da literatura, do teatro e gostaria de gostar mais desse lugar e desse povo.

 

Gostaria de poder bater no peito e cantar que sou brasileira com muito orgulho, mas infelizmente não consigo fazer isso. Na verdade se houvesse outro país tropical em que as injustiças e desigualdades fossem menores do que aqui, eu já teria me mudado para lá. Infelizmente as zonas tropicais do planeta parecem todas terem sido amaldiçoadas pelo colonialismo e pela herança maldita dessa identidade mal formada, mal conduzida e malcriada. Mas isso sou eu, cá comigo, mau humorada com as demonstrações cotidianas de falta de consciência política e amor ao consumismo babaca que o dito “cidadão” brasileiro pratica. Nos últimos dias entretanto, eu tenho compartilhado a surpresa e a satisfação de ver a revolta e até participar dela. Ela me trouxe alguma esperança de que essa vontade de gostar mais do Brasil e do povo brasileiro venha um dia a se concretizar. Isso porque eu tenho dito há muito tempo que o povo parece estar dormindo, parece não ter entendido ainda o significado da “democracia” como participação direta nos rumos da nação. Faz tempo que venho reclamando da vida de gado das pessoas que dedicam sua energia ao trabalho até a última gota e depois extravasam suas frustrações diante da tela da TV, sonhando com a vida dos outros nas novelas, ou berrando palavras de ordem durante o futebol. Isso tudo tem me irritado a um ponto inacreditável, haja visto que sou somente uma pessoa comum, ordinária, medíocre, que não teve a sorte de nascer filha de político para seguir carreira, nem de ter um gênio especial que me destacasse e me colocasse no centro de alguma coisa. Sou uma cidadã periférica, que já quis muito envolver-se politicamente mas que foi arrastada pelas torrentes do cotidiano como tantas e tantas outras pessoas. Seria natural que os questionamentos sobre a vida de gado não me afetassem, ou afetassem muito pouco. Seria natural que eu fechasse os olhos e dormisse tranquila, que eu consumisse os produtinhos culturetes da mídia e pulasse feliz no carnaval. Porém, de algum modo esse desejo de gostar mais do Brasil e a frustração de não conseguir, me tornou amarga e azeda. Não vejo graça no carnaval, ultimamente até meu gosto pelo futebol parece ter sido estragado pelos sucessivos escândalos de corrupção. Sempre detestei novelas e não assisto Tv há mais de quatro anos. Não compartilho modismos, não celebro celebridades e no geral, só reclamo. As revoltas juninas me assustam, tanto quanto me dão um certo prazer sádico de ficar pensando na prisão de ventre que deve estar afetando nossos políticos.

 

Não vejo nestas revoltas a solução para a situação. Se esperarmos que as coisas mudem da noite para o dia, nada mudará. Contudo, pela primeira vez em muitos e muitos anos, vejo uma luzinha tímida ascender no fim do túnel: será que estas revoltas realmente despertaram o gigante adormecido? A famigerada consciência política nacional? É tão interessante ver as pessoas indo para as ruas e gritando “sem bandeiras, sem partidos”! Interessante e perigoso ao mesmo tempo. Interessante porque bandeiras de partidos são símbolos históricos nas mais recentes insurreições populares brasileiras. O PT construiu-se como partido de ativismo de base, que dava suporte aos movimentos populares. Seguindo seu rastro temos o PSTU. Mais antigo que estes temos o PC do B, muito embora, com toda a repressão ao comunismo, as bandeiras vermelhas não puderam ser erguidas no passado… O movimento sem bandeira de partido é um recado evidente da sociedade brasileira aos políticos que sempre se apropriaram das manifestações populares para fazer demagogia. Também é um símbolo de unidade: sem bandeira, sem partido, porque todos estamos unidos na insatisfação. Não é uma manifestação propositiva, mas de protesto. Não vale a pena questionar neste momento a eficácia de uma revolta de protesto contra tudo, sem pauta específica, sem liderança evidente, sem objetivo marcado. Não vale a pena questionar isso agora, porque neste momento estas coisas não serão resolvidas. Os objetivos são a melhoria das condições de vida em geral. As pautas específicas para que este objetivo seja atingido nos escapam, primeiro porque os motivos são tantos, “é tanta merda que não cabe num cartaz”. Segundo, porque os partidos perderam a base que os sustentam. Há muitos anos que eles deixaram o ativismo de lado e se enfurnaram em diretórios escondidos atrás das fachadas comerciais dos prédios urbanos. Desde que o PT assumiu a presidência, parece haver um pacto silencioso de não agressão, onde os partidos não mobilizam a sociedade, não se aproximam dela, não fazem eco às suas reivindicações, não fazem pressão, não ouvem e não falam a voz do povo. É natural que agora, nesta revolta popular, ninguém deseje ver um partido erguer sua bandeira como se o mérito do despertar da consciência política lhe pertencesse.

 

Despertar da consciência política… essa ideia me parece quase inacreditável e também não vale a pena falar sobre isso nestes termos, neste momento. Primeiro porque a consciência que tenho visto nas ruas, não é exatamente política. Eu explico: é política enquanto noção geral de união e força reivindicativa, mas não é política enquanto disciplina. Faltam-nos os meios para transformar esta força reivindicativa em processo. Como disse um amigo, falta “arquitetura política” e rotina. Daí faltar a noção de que sem pautas específicas, dificilmente conseguiremos mudar alguma coisa. O pronunciamento da presidente Dilma ontem, dia 21 deixou isso muito claro. Ouvimos nas ruas uma série de reivindicações e por algum motivo ela escolheu três delas para abraçar como causa popular. Talvez tenha eleito os royalties do petróleo para educação porque este é um projeto político pessoal seu e que faz coro com muitas das vozes da revolta, a importação de médicos é uma solução paliativa para as vozes que clamam pela saúde e a reforma política é um tema que pretende de modo geral, responder às reivindicações gerais de moralidade política e fim da corrupção. Contudo ela nada falou sobre as tentativas de golpe do Congresso através das propostas de emenda constitucional que suprimem do Ministério Público as atribuições investigativas e fiscalizadoras dos três poderes e que tornam o Supremo Tribunal Federal uma instituição subordinada ao Congresso. Não falou por exemplo da sua própria tentativa de golpe, ao impedir a criação do partido da Marina Silva, sua rival mais poderosa para as próximas eleições… Não falou sobre muitas coisas, por que isso faria com que seu pronunciamento seguisse por horas a fio nas redes de TV, ou por que isso a comprometeria seriamente com a nação?

 

Fiquei com a sensação do peixe que nadou, nadou, para morrer na praia…

 

O povo responde: não vamos parar por aqui!

 

Concordo que estas promessas por si só são insuficientes e pelo menos até que algumas delas saiam da boca e se tornem realidade, não podemos parar a mobilização, ao contrário, é hora de compreendermos alguns pontos para que esta força não fique estagnada no vácuo dos arrastões:

– os partidos são necessários, porque são eles que concentram as reivindicações e as transformam em projetos de lei e ações.

– a democracia direta se realiza nos bairros, nas comunidades, através de assembleias e comitês. As pessoas precisam começar a organizar estas reuniões e a redigir documentos com propostas, que deverão ser levadas aos partidos, que por sua vez as referendarão, elencando prioridades e as conduzindo ao governo.

– os partidos não pertencem a este ou àquele político. Eles são propriedade do povo que deve apropriar-se deles, reconfigurá-los, reformá-los ou recriá-los a fim de que se tornem instrumentos ao seu favor. Instrumentos burocráticos e ideológicos, sem os quais não é possível estabelecer uma mesa de negociação.

– finalmente a questão da união, do nacionalismo, do orgulho… mal começamos as manifestações e vejo já os velhos bairrismos aparecendo na forma de direita versus esquerda, na forma de conceituações irônicas sobre algumas formas de manifestação (os coxinhas, os cara-pintadas, etc), na forma de críticas a esta ou aquela demonstração de orgulho ou nacionalismo. Sinceramente, compartilho muitas dessas críticas, mas confesso que prefiro guardá-las comigo neste momento. Não sou a favor de muitas das reivindicações ditas de direita, ou de outras ditas de esquerda, mas neste momento em que as pautas nem foram ainda referendadas, acho perigoso promover esta divisão, estes bairrismos. Mal começamos a nos manifestar e vejo já o racha político que enfraquece a força reivindicativa e pulveriza ainda mais as pautas. Não acredito que qualquer forma de manifestação é válida, mas não me vejo neste momento em posição de julgar aqueles que pintam a cara, ou aqueles que nem sabem direito porque estão indo às ruas, ou aqueles que protestam usando palavras de ordens com as quais eu não concordo… Se eu esperasse que só se manifestassem neste país as pessoas que pensam como eu, o Facebook por exemplo, me daria uma boa estatística: iriam para as ruas duas ou três pessoas. Vejo muitos manifestantes ditos de esquerda, defenderem a queda do Marco Feliciano porque ele é claramente uma figura inadequada para ocupar a pasta da diversidade cultural. A dita diversidade defendida pelos manifestantes contudo, não aparece quando do seu lado tem alguém gritando pela volta da ditadura, ou pelo porte de armas, ou pela maioridade penal… Concordo que há reivindicações que são difíceis de engolir, principalmente para as pessoas que vêm de uma tradição política que foi perseguida e combatida como o demônio da era moderna, que é o comunismo. Não quero a ditadura de volta, sou contra o porte de armas e não estou defendendo a direita reacionária. Mas defendo o direito dela se manifestar e não acho que o diálogo e o estabelecimento de pautas nacionais devam ser prejudicadas por um bairrismo precipitado. Há consensos nestas manifestações que surgem dos mais variados setores: nem direita, nem esquerda, nem classe trabalhadora, nem burguesia industrial são a favor da PEC 37, só para citar um exemplo. Outro exemplo é a presença de José Genoíno e João Cunha na presidência da Comissão de Justiça da Câmara, ou ainda a liberdade dos mensaleiros condenados, ou o foro especial para os políticos. Direita e esquerda deploram igualmente os gastos com a Copa do Mundo em detrimento da saúde e educação pública. Há pautas reivindicadas pela direita e pela esquerda que não são consensuais e que deveriam ser referendadas: a maioridade penal, o estatuto do nasciturno, o porte de armas, o aborto, a reforma penal, entre outras…aliás, são estas questões que diferenciam na base a direita da esquerda política e no Brasil, essas diferenciações também não são claras. Aqui todo intelectual sensato já disse que não há uma esquerda, são AS esquerdaS no plural, assim como a direita também é plural. Temos pessoas progressistas a favor da pena de morte e reacionários a favor do aborto. As coisas se mesclam e fazer esta divisão entre direita e esquerda não é tarefa fácil para nenhum cientista político. É mais fácil quando alguém levanta um cartaz dizendo “Ditadura Já”, ou “Revolução Socialista já”, mas estes que assumem posições bem delimitadas são minoria. Na maioria dos casos ninguém sabe quais são as pautas dessa revolta, assim como ninguém sabe exatamente qual sua própria postura, por isso vemos mais manifestações de “nem direita, nem esquerda, para frente”. Deplorar o manifestante “coxinha”, aquele que é visto como massa de manobra, só porque suas convicções políticas são fracas, é ignorar o potencial desse manifestante neste momento de tomada de consciência. Ele não é um manifestante consciente, mas pode vir a ser e se a esquerda o deplora, a tendência é que ele vá encontrar um lugar confortável nos braços da direita. O manifestante “coxinha” tem suas razões para estar ali, seja porque ele acha legal pintar a cara e sair nas ruas gritando “abaixo à corrupção”, seja porque ele também é trabalhador, também paga impostos abusivos, também se envergonha com os gastos públicos e outra série de coisas para as quais, sua inaptidão política, ou inexperiência, o impedem de elencar, de nomear, objetivar… mas será que o “coxinha”, que não tem consciência política a priori, terá consciência de ser “coxinha”? Será que ele não é fruto direto da ausência de “arquitetura política”, de rotina política, de representação de base?

 

Da mesma forma não concordo com quem tem deplorado as manifestações sobre “orgulho de ser brasileiro”. Já expliquei que particularmente não tenho orgulho algum, mas fico emocionada por ver que outras pessoas têm. Eu não as compreendo, não sei do que sentem orgulho, mas sei o que elas estão querendo dizer quando cantam “com muito orgulho e muito amor”. Em outras palavras esta canção de “protesto” não é muito diferente de dizer: “não vou fugir à luta”. Tenho lido pessoas criticando o entoar do Hino Nacional durante as passeatas. Por quê? Eu não compreendo a origem do rancor contra o Hino. Já disse que o nacionalismo às vezes pode ser bom, às vezes pode ser pior. Tanto a esquerda, quanto a direita já se valeram do nacionalismo em momentos e contextos específicos. Este momento é um momento de nacionalismo legítimo! As pessoas estão indo às ruas protestar dentre outras coisas, contra o arrocho promovido pela globalização. Tá certo que compartilhamos com o resto do planeta dos mesmos malefícios trazidos pela globalização econômica e que não podemos pensar que a insatisfação do brasileiro é única no mundo. Contudo aqui temos nossas particularidades, temos por exemplo a obrigação de sediar a Copa do Mundo, de cantar o Hino Nacional antes de fazer rolar a bola… não somos cidadãos do mundo no sentido mais esclarecido da palavra, somos cidadãos brasileiros, que ocupam o mesmo território, falam a mesma língua e sofrem os mesmos abusos. Querer transformar esta revolta em mais uma do ciclo de Seattle-Itália-Genebra, é um sonho de longo prazo, porque mal começamos a ter consciência política nacional, como esperamos da noite para o dia acordar de mãos dadas com o planeta e fazer a revolução global tão sonhada pelos socialistas?

 

Enquanto isso, no país tupiniquim, tem gente com vergonha de cantar o Hino Nacional nas passeatas. Sinceramente, jamais vi o hino ser cantado num contexto e de uma forma mais apropriada. O Hino Nacional é um símbolo de nacionalismo que na maior parte das vezes é usado como cliché barato e apelativo. Cantar o Hino antes de uma partida de futebol parece tão natural, nunca vejo ninguém criticando isso, mas cantar o Hino durante uma revolta contra a podridão das nossas instituições políticas, contra os abusos do capital, contra o desserviço público frente ao custo imenso do trabalho é errado? É errado usar o Hino como símbolo de união neste momento de insatisfação generalizada? Não estou entendendo…

 

Haverá um momento nesta “tomada de consciência” em que alguns nacionalistas exacerbados ficarão gritando sozinhos, enquanto a esquerda mobilizada estará reunida em seus comitês. Haverá um momento em que poderemos dizer: esta pauta sim, esta não! Em que será necessário aglutinar esforços para esclarecer as pessoas sobre esta ou aquela proposta que fere este ou aquele direito e que portanto não pode, de modo algum ser aprovada. Haverá o momento em que os favoráveis às ditaduras, sejam elas militares ou do proletariado, terão que ser combatidos pelos que defendem a liberdade. Finalmente haverá um momento em que o Hino Nacional será cantado fora de contexto, re-apropriado por algum demagogo em alguma situação esdrúxula. Neste momento, contudo, acho válido que a população esteja se apropriando desse símbolo, aliás, não vejo outro momento em que este símbolo possa ser mais bem apropriado. Acho válido que estejam indo para as ruas toda a nossa diversidade cultural, política e econômica, gritando palavras de ordem diferentes, mas que no fundo querem dizer a mesma coisa: precisamos de mudanças urgentes!

 

Isso me recorda da palavra de ordem “O povo unido jamais será vencido” que é pouco criticada pela direita ou pela esquerda, porque foi usada no momento da reabertura política e trouxe o Brasil de volta para os trilhos da construção da liberdade. Acho que é válido pensar nesta frase neste momento, mais do que em qualquer outra, porque é disso que se trata esta reflexão: da necessidade de buscarmos aquilo que nos une, não o que nos separa, para que possamos somar forças e conquistar as mudanças pertinentes que afetam toda a nossa sociedade. O que nos separa é o próximo passo, é o que vem nas camadas intermediárias que estão entre a insatisfação e a mudança. O trato com a diversidade tão aclamado pelos ativistas, na prática é muito mais complicado do que na teoria. Em meio aos consensos existem os dissensos e só há um meio de lidar com isso: através do diálogo. Não vejo vantagem alguma de nesse momento especial da vida política do país e da História da nação, buscarmos primeiro aquilo que nos diferencia enquanto povo, aquilo que destrincha esse nacionalismo de fachada, para só então reconstruirmos os consensos. Não acho que se constrói a mudança partindo e separando os tijolos. Ouvi alguém dizer que precisamos estar de olhos abertos, para não nos enfiarmos de bobeira neste ou naquele discurso, nesta ou naquela bandeira, precisamos separar o joio do trigo… concordo que este é o momento da tomada de consciência, mas não vou fazer o meu discurso valer mais que o do outro simplesmente desprezando-o. Esta tática está vencida há muito tempo. Se você quer o fim do ativismo coxinha, precisa pegar o coxinhista pela mão e sabatiná-lo. Se nem assim funcionar, você pode dizer que tentou, agora ficar xingando ou depreciando aqueles que são diferentes das suas próprias convicções, quando na maioria das vezes eles sequer possuem convicções é, na minha opinião, a pior forma de “Coxinhismo”, porque cria divergências podadas pela superficialidade, antes de haver o debate, as negociações. É prática preconceituosa e nada construtiva depreciar o outro porque ele pensa diferente. É preciso ouvir o discurso “adversário” e compreendê-lo até melhor do que o próprio “adversário” o compreende, para que tenhamos nas mãos os argumentos corretos no embate teórico que precede qualquer ação política. A inversão dessa ordem é mais perigosa até do que deixar a diversidade falar suas muitas linguagens e convicções. Partir para a ação antes do diálogo, antes do embate teórico e da negociação é autoritarismo puro e simples.

 

Para terminar, antes que alguém pense que estou defendendo as convicções reacionárias, torno a dizer: deploro as ditaduras, todas elas, seja de Lênin, ou de Médici, seja de Castro, ou de Geisel. Mas concordo com Voltaire: “posso não concordar com o que você diz, mas lutarei até a morte pelo seu direito de falar” e a voz que está falando mais alto neste momento não é a da direita ou da esquerda, mas a voz do povo e quer você concorde ou não, esta é a voz da nação.

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