DIREITA E ESQUERDA, VOLVER!

Bastaram as jornadas de junho no Brasil para fazer aflorar a nostalgia de um mundo onde ideologias eram possíveis. Direita e esquerda, volver! Vamos voltar ao passado e nos apegar às velhas e fracassadas ideologias, vamos dividir o debate e construir um muro de Berlim entre as idéias.

Depois de ter me graduado, mestrado e doutorado na universidade, acreditei seriamente que ideologias de direita e esquerda eram coisas do passado, afinal vivemos no mundo do capital global, não há mais qualquer possibilidade de retorno às velhas palavras de ordem, mesmo assim, vejo nas redes sociais o ressurgimento dos discursos direita X esquerda. Já falei disso aqui, mas vamos nos aprofundar um pouco mais…

Tenho lido a direita conclamar os cidadãos para planejar o futuro governo, onde os “comunistas” serão expulsos do debate e da administração. Tenho lido a direita dizendo que o PT é comunista, que políticas de privatização comprovam mundo afora que o Estado não tem competência para cuidar da vida pública.

Fico me perguntando de onde as pessoas tiram essas idéias? O primeiro ponto crítico é chamar o PT de comunista. Se você leu o manifesto do partido, escrito nos anos oitenta, depois disso viajou para fora do país e só voltou agora, pode até mesmo acreditar que se trata do mesmo partido, mas basta uma olhada nas políticas realizadas desde as eleições de Lula até Dilma, para entender que de comunista eles não têm mais nada. Privatizações foram e continuam sendo feitas, as políticas de bem estar social, como o “Bolsa Família” e que tanto provocam os “direitistas”, são cópias modernas do Well-Fair State de Roosevelt, após a quebra da bolsa de valores em 1929. Essa política de auxílio social do Estado serviu nos EUA como uma das alavancas que salvou a economia daquele país do naufrágio. Aqui ela teve a mesma finalidade, uma vez que o PT apostou no consumo como saída da crise. Funcionou, doa a quem doer e aqui entra um segundo ponto crítico:

Por que não pode haver debate? Porque apologistas da “direita” insistem em dizer que não se deve debater ou negociar com a “esquerda”? Da mesma forma, por que não admitir que uma ou outra política deu certo pelos resultados que ela apresentou? Só porque foi feita pela oposição? Que oposição? Onde a “direita” brasileira realmente difere da “esquerda”?

Outro dia um amigo que migrou para a direita disse que devemos ler seus pensadores e ouvir suas propostas, porque a “direita” não é necessariamente autoritária, não mais, nem menos, do que a “esquerda” clássica e tem também sua intelectualidade, suas propostas políticas e econômicas que são tão válidas quanto as propostas e políticas de seus antagonistas ideológicos.

Até aí tudo bem… essa lição de ouvir a oposição, negociar, aprender, ensinar, debater, até o consenso é um exercício de democracia e é tudo o que precisamos por enquanto… no entanto ao ler os pensadores da “direita” me deparo com afirmações como a expressa acima: de que a “direita” tem que parar de debater com a “esquerda”, execrá-la dos processos políticos e tomar o poder…

O engraçado é que os representantes da “direita clássica”, ou da “esquerda clássica” sempre pensam que a tomada do poder, assim dessa forma autoritária, será conduzida por pessoas que pensam exatamente como elas.

Outro dia num desses debates, que mais se parecem com confrontos, encarei um “direitista” que estava afirmando como as coisas eram boas no Brasil na época da ditadura… não bastou para ele que todos os participantes da postagem publicassem dados econômicos, políticos, sociais comprovando o fracasso da ditadura militar como gestora da coisa pública e ideológica neste país. Não. Para os “crentes” da “direita”, política é como religião, basta ter fé que a coisa acontece a despeito da ciência, da lógica e dos resultados. Mas enfim… ele manteve sua defesa sobre a ditadura, apesar de todas as informações contrárias,  então eu marquei um gol, quando disse a ele que ele não conhecia História.

Ele respondeu dizendo que era estudante, lia muito sobre história (nos livros didáticos), lia muito jornal (estado e folha), revistas (veja e época) e portanto, tinha conhecimento de causa para dizer que o passado da ditadura militar era melhor do que o presente da democracia.

Eu respondi que: se de repente uma ditadura fosse instaurada, não haveriam mais debates políticos, porque as ditaduras em geral (seja de direita, seja de esquerda) se pautam pela autoridade para conduzir as políticas e não pela negociação em pé de igualdade. Uma ditadura é sempre hierárquica e aqueles que se contrapõem às autoridades, são sempre reprimidos e muitas vezes até exterminados. Assim sendo, se uma ditadura se instaurasse hoje, não bastaria ao colega defensor da ditadura, manter argumentos baseados em livros didáticos, revistas ou jornais, porque sempre haverá, numa situação de endurecimento político, uma autoridade maior sobre o assunto. Neste sentido, ele teria que obrigatoriamente baixar a cabeça para mim e dizer sim senhora, afinal eu sou Historiadora formada, mestre em Sociologia, doutoranda em Sociologia Ambiental e portanto, numa situação de ditadura, eu seria considerada autoridade sobre ele que não é nem uma coisa, nem outra, não tem formação específica na área e portanto, não poderia ficar discutindo história do Brasil comigo! Concluí dizendo que ele deveria agradecer a situação de democracia, porque ela é a única que permite a um cidadão como ele, ficar discutindo História do Brasil com uma cidadã como eu!

Esse argumento encerrou a discussão. A resposta dele foi evasiva: não defendo autoritarismo, tirania, ditadura nem nada disso… só que não! Até aquele momento eram exatamente essas coisas que ele estava defendendo como solução para o Brasil.

Trouxe essa discussão aqui porque ela exemplifica duas coisas: a primeira é o volver, o retorno às velhas e fracassadas ideologias, a segunda é a miopia de quem defende um mundo autoritário, dividido entre direita e esquerda.

Nem comunismo, nem ditadura, nem neo-liberalismo deram um jeito nas contradições impostas pelo capital globalizado. Na Europa neo-liberal a União Europeia fracassou redundantemente, obrigando os governos dos países a puxarem as rédeas da iniciativa privada e se recolocarem como moderadores entre a economia e a nação. Na Rússia o comunismo fracassou ao impor uma classe privilegiada sobre a noção de igualdade e estagnar a economia e o avanço tecnológico pela falta de iniciativa privada. No Brasil a ditadura afundou o país numa situação econômica de dívidas absurdas, corrupção instaurada e ausência de experiências democráticas que afetaram profundamente a nossa cultura.

A miopia de quem defende o retorno às velhas ideologias fracassadas impõe a ideia de que uma vez erguida a bandeira, direita, ou esquerda, os governos que serão eleitos, ou darão um golpe, responderão diretamente aos desejos daqueles que ergueram essas bandeiras. Loucura pensar assim porque os governos, direta ou esquerda, todos, estão submetidos a uma única lógica: a do capital. Esta lógica tem um tanto de racionalidade, um tanto de acasos e oportunismos e um tanto de incógnitas matemáticas. Os economistas sabem muito bem disso e evitam defender bandeiras ideológicas, porque o mundo do capital não é um mundo de crença, ou de mão única, onde um viés político pode ser adotado e seguido passo a passo numa cartilha. Não! O mundo do capital é um mundo ideologicamente promíscuo, de contas matemáticas, objetivações administrativas, montantes de recursos, planejamento de meios e fins, seleção de agentes estratégicos e flexibilização de todas estas etapas, de acordo com os fluxos de marés de investimentos e novas ofertas e oportunidades de negócios!

Não adianta defender o Estado e a central do partido, ou defender Deus, família e propriedade: não dá, simplesmente não dá, para impor políticas que sigam um ou outro viés num mundo dominado pelo capital. O que dá pra fazer é aprender as regras do jogo e a negociar… o que dá pra fazer é aprofundar os conhecimentos do público e dos governos sobre administração, sobre matemática, sobre planejamentos, estabelecer objetivos e traçar estratégias.  Isto significa que para esta ou aquela situação, há políticas mais adequadas. Agora acreditar que o governo e o país como um todo deva seguir obrigatoriamente um viés, uma ideologia e que isso é a solução? É crença infantil, anacrônica e que não deve ser levada a sério por ninguém.

O problema é que vivemos num país onde impera a cultura da ignorância: é bonito ouvir funk carioca falando de bundas e vagabundas em alto volume nas ruas, é bonito atrapalhar o sossego das pessoas, comprar roupas de marcas de acordo com a novela das oito, ficar se babando de sentimentalismo quando alguém é assassinado e depois ir comprar cocaína e crack das mãos do assassino, gastar o salário de um ano inteiro num celular da moda, insultar o professor e os colegas que querem aprender… Feio é frequentar a escola em silêncio, respeitar o professor na sala de aula, estudar sério, buscar oportunidades de ingressar numa faculdade, se graduar, planejar a médio prazo, desligar a tv para ler um livro, falar um bom português, consumir moderadamente, não se importar com modismos, acreditar que há mais na vida do que nas novelas, participar politicamente, se informar, acreditar que a ciência é a melhor invenção da humanidade e tentar seguir alguma delas, ainda que seja por curiosidade e amadorismo… estes são alguns exemplos singelos de para onde estamos indo…

Por causa dessa cultura que impera, a cultura que eu chamo de “cultura do macaco”, porque impõe a formação irracional e instintiva da espécie humana, por causa disso, temos situações como a descrita aqui: acreditamos num mundo dividido, quando nós, o povão, queremos no fundo no fundo as mesmas coisas. Abraçamos religiões e ideologias da mesma forma e pela mesma razão que engolimos comida enlatada: é solução aparentemente pronta, mais prático, mais rápido, exige o menor esforço… mas tem efeitos colaterais indesejados e que ignoramos, ou fingimos ignorar. A preguiça mental que impera no mundo de hoje é a grande responsável por estas e outras babaquices. Ao invés de negociar com aqueles que pensam em estratégias diferentes para os mesmos objetivos, procuramos sempre nos impor a eles e exterminá-los da vida política.

Apesar da infantilidade desse tipo de posicionamento isso é o “que tem pra hoje” e sinto informar aos otimistas de plantão: você acredita que a coisa tá ruim? Pode ter certeza de que vai piorar muito mais!

Esse volver às velhas e retrógradas ideologias fracassadas tem ganhado adeptos do mundo dos macacos irracionais a cada dia. Em ebulição apresento-vos um caldo de grosserias, onde nem os dados históricos, numéricos, científicos são capazes de convencer aqueles que tiveram suas mentes embotadas pelos instintos mais básicos e pouco racionais. Seguidores do sr. Olavo, que acreditam que há uma conspiração da esquerda capaz de modificar todos os dados científicos do que foi a ditadura militar neste país, não acreditam de forma alguma que a direita fracassou economicamente e pouco estão se lixando para a censura prévia e as perseguições políticas. Da mesma forma tem muito comunista velho que bate palmas para as parcas vitórias conseguidas pelo PT, como se o PT fosse o representante comunista no Brasil, tivesse levado em prática metade das suas propostas, ao invés de abrir as pernas para o neo-liberalismo e os interesses da minoria privilegiada…

Não somos míopes, somos fanáticos! Tente convencer um fanático religioso de que não há provas da existência de Deus… da mesma forma, tente convencer um adepto da “Direita” ou da “Esquerda” de que estas ideologias FRACASSARAM. Não dá! Simplesmente não dá, nem com Ciência, nem com História, nem com Filosofia. A história é de quem acredita, não é fato, não é processo, não é evento, nem fenômeno, é sim de quem acredita, de quem inventa e reinventa, é dos milhões de historiadores formados pela rede globo de televisão e pelas editoras da revista veja, da época, do estadão, da folha…

Se não há debate, não há crescimento, não há desenvolvimento. Se a Esquerda e a Direita estão irremediavelmente separadas por um abismo de vácuo ideológico, então por que não partirmos já para as armas a decidir quem manda através de uma guerra civil?  Bem… guerra civil já existe, basta ver a polícia contra o povo, todos os dias nos nos jornais, nas redes, nos grandes centros… ainda bem que as dimensões políticas desta guerra ainda não adquiriram estes contornos delimitados, mas será que falta muito para isso acontecer?

Quando é que os adeptos direita X esquerda, abandonarão essas cartilhas e admitirão de uma vez por todas que é preciso recomeçar do zero, a partir da base das negociações e dos indícios que já possuímos de que o buraco é sempre mais embaixo, de que as regras do capital são insensíveis às crenças e penetram factualmente em todas as ideologias? Quando é que vamos aprender que a única maneira de nos protegermos da “lei da selva” é através da negociação ampla até a chegada num consenso dialógico?

 

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