SOBRE O FUNK E OUTROS ERROS CONCEITUAIS…

Em carta aberta, em resposta a Rachel Sherazade, publicada em seu blog a mestranda Mariana Gomes detona com a fala conservadora da jornalista âncora do SBT.

Longe de defender Sherazade, muito longe, só gostaria aqui de dar um pitaco na discussão atentando para dois erros conceituais contidos na resposta e que pouco esclarecem o pensamento que está por detrás do texto. Em primeiro lugar gostaria imensamente de ler a dissertação da Mariana, porque gostaria de compreender melhor o que são estas manifestações musicais que se autointitulam funk.

Aqui quero levantar o seguinte: primeiro o nome de funk dado a esse estilo musical.

Funk em inglês é (grosso modo) fedor! Mal cheiro, principalmente relacionado ao corpo: mal cheiro de suor, cheiro de sexo (que para os cunhadores da expressão era algo terrível). Este termo foi usado para designar um tipo de música de afrodescendentes, produzida nas periferias das grandes cidades estadunidenses, lá pelos idos da década de sessenta.

Esse tipo de música recebeu esse nome (funk) por dois motivos: porque era música de “preto”, de “favelado” norte americano e era dançante. As pessoas que as ouviam se sentiam embaladas e motivadas a dançar, além disso a dança que acompanhava essas melodias exigiam movimentos sensuais do corpo, o que fazia com que o estilo fosse considerado pelos moralistas como algo muito sexualizado. As pessoas que participavam dos bailes funk dos anos sessenta e setenta, dançavam até suar e, por conseguinte…até feder ” cc “, ou até ir parar na cama, em ato sexual estimulado, o que no final das contas acabava no mesmo, ou seja, na exalação de odores do corpo, o FUNK propriamente dito.

Funk foi o nome depreciativo designado pela sociedade branca, ao repertório musical em voga na época, produzido pela sociedade negra, sendo ambas sociedades, parte de um conjunto cultural maior compreendido no território dos Estados Unidos da América do Norte.

Não se pode dizer que funk era o nome dado pela sociedade branca a todo e qualquer repertório produzido pela sociedade negra estadunidense, porque também existiam o blues, o soul, jazz, o rock’n roll, e uma infinidade de melodias que para nossos ouvidos brasileiros soam iguais, mas que na verdade possuem variações regionais, tanto quanto as batidas do “boi bumbá” e do “bumba meu boi” no norte e nordeste brasileiros.

Funk portanto, não era uma designação racista para toda e qualquer música de “preto favelado”, mas uma designação racista para um tipo específico de música afrodescendente e que possuía uma rítmica marcada pela percussão e pelos graves do baixo, entremeadas por refrões repetitivos de metais, frases cantadas ou faladas, vocais femininos extraídos do soul e que compunham uma melodia colorida, em tons e ritmos.

O “pai” incontestável do Funk é o falecido James Brown, que é considerado como o primeiro músico e compositor a “misturar” o soul com o jazz e o rock’n roll, mistura essa que gerou essa variação.

Quem quiser um exemplo do que é Funk pode ouvir a faixa abaixo, que contém o que é considerado como o primeiro Funk da História.

Sabendo disso, ouvindo isso, qualquer um pode se perguntar o que o Funk tem a ver com aquelas músicas que ouvimos nos carros dos novos playboys, nos postos de gasolina, nas ruas, nos bailes da periferia do Rio, agora já em São Paulo e adentrando pelos confins do Brasil? As diferenças são afinal, gritantes: enquanto o Funk se esmera em virtuosismo musical, com solos de trompete, saxofone, trombone e até flauta extraídos da tradição jazzística da cultura musical afrodescendente e norte americana, o atual Funk Carioca parece repudiar a melodia e se apegar no bit repetitivo que preenche o silêncio entre as frases ditas, meio declamadas, meio cantadas, quase sempre afinadas num único tom. O Funk original, ao contrário, tem grandes nomes nos vocais, tais como: Lyn Collins, ou Aretha Franklin (que também fez suas incursões por este estilo), Jean Knight, entre outras tantas “Soul Sisters”.

O Funk (original) chegou ao Brasil nos anos 70 e teve aqui algumas expressões: Toni Tornado ,Tim MaiaTony Bizarro, assim como algumas incursões de artistas antropofágicos como Jorge Ben Jor e artistas da jovem guarda como (pasmem) Roberto Carlos.

O Funk é em sua essência um estilo dançante, de afirmação cultural afrodescendente, que afronta as bases morais estadunidenses porque encanta a juventude branca, porque fala de sexo (indiretamente se comparado com as letras do funk carioca), hora afirmando, hora negando o machismo, o feminismo, o romance, o amor… É o que há algumas décadas nós chamaríamos de “o fino da bossa”, o que há de melhor da cultura musical afrodescendente norte-americana do período: excelentes músicos, cantores, compositores, todos unidos em favor da afirmação da cultura e da sociedade negra na mídia, buscando espaços públicos de expressividade, expandindo o “black power” para o cinema, para as casas noturnas dos bairros dos brancos, para as manifestações políticas…

A música em si é de pura qualidade pop, que valoriza enormemente a cultura afrodescendente norte americana  e não pode ser comparada à pobre musicalidade do que se quer chamar de Funk atualmente no Brasil, mas que não é, ou seja, este som que vem hoje em dia da periferia das cidades brasileiras, produzido quase sempre em computadores com bits empacotados, prontos, repetitivos e sem instrumentação, além de alguns softwares de efeitos e principalmente, sem as divas vocais…

Há quem goste do tal funk carioca, mas gosto é gosto (e mau gosto é mau gosto), como dizem.

Não deixa de ser uma expressão de afirmação de identidade, tal e qual o Funk. Também é (para alguns ouvidos) um som dançante, que exige movimentos corporais sensuais, onde as pessoas suam e exalam seus odores, daí talvez algum engraçadinho, certamente um branquelo, ter começado a usar o mesmo nome para designar um ritmo que pouco, ou nada, tem a ver com o estilo musical original. Também pouco ou nada tem a ver com a forma de afirmação de identidade. Se nos EUA o funk foi usado como expressão musical de várias revoluções comportamentais que estavam acontecendo (revolução sexual, combate à segregação racial, integração do negro na burguesia), aqui em Pindorama, ele representa uma massa de alunos saídos dos colégios estaduais, formados pela progressão continuada, que ainda não tiveram uma porta de entrada para a classe média, salvo algumas migalhas doadas pelo governo. Não há revolução comportamental à vista, ao menos nenhuma que seja significativa, como foram as revoluções dos sessenta e setenta no mundo.

Também não podemos dizer que o funkcarioca tem relações com o Funk porque é “som de preto, de favelado e quando toca ninguém fica parado”. Não é sequer um desdobramento do Funk original, como podemos dizer sobre o Rap . O samba, o Rap, a capoeira, o tambor de crioula, também são sons de matriz africana altamente dançantes e que ninguém confunde com Funk, jazz, ou blues, por óbvias razões sonoras. Assim, é um erro conceitual chamar o funk carioca de Funk, porque a adoção do nome pretende reescrever a história de um estilo musical, cuja grande virtude, que é a melodia colorida dos vocais e o ritmo instrumentalizado, por instrumentos musicais de verdade, está ausente. Ao meu ver chamar essa nova sonoridade de Funk , destrói a memória do que foi esse estilo que nos deixou produtos culturais de qualidade.

Aliás, lendo o verbete funk carioca no wikipedia  dá para se ter uma noção da confusão que foi feita em torno do termo Funk aqui no Brasil, que designou uma gama de estilos oriundos do rap e hip hop. Chamou-se de funk aqui no país tupininquim todos os sons que vinham da periferia.

Quanto a chamá-lo de Funk porque representa um momento histórico em que a pobreza das favelas reage, na busca por direitos, nas manifestações políticas, na economia… bem, ao meu ver há uma produção de ilusão de igualdade e um sistema de manutenção dessa ilusão. O Funk Carioca, na minha opinião, representa este sistema ilusório de que há uma revolução que integrará os estratos mais pobres do país, no maravilhoso mundo do consumo das superficialidades.

É fato estar havendo uma expansão do capitalismo nas áreas de extrema pobreza. Uma diminuta divisão da renda do brasileiro, que empoderou levemente as favelas e os grotões da pobreza no interior do país. O acesso ao crédito permitiu que as pessoas passassem a comprar mais, a ter mais acesso aos bens materiais e culturais, muito aquém do que poderíamos chamar de divisão saudável de renda, mas um avanço se comparado a outras décadas. No entanto, esse avanço no poder de consumo não veio acompanhado de um avanço no acesso à educação e aos direitos, que integrem as noções de igualdade social, de justiça social e de combate ao racismo. A sociedade brasileira parece querer uma transformação, mas essa transformação ainda não aconteceu e os avanços na esfera da justiça social, caminham a passos de tartaruga.

Aonde o pobre que passou a ganhar um pouco mais investe seu dinheiro?

O Funk carioca fala exatamente disso. Dos valores que o sustenta: a mulher bonita e poderosa no carrão, que submete o homem porque é independente e não precisa dele. Ou o homem que fala da mulher como objeto sexual, quase sempre descartável. Falam do carrão também, falam dos seus padrões e signos de status dentro da favela, o patrão, o poder que têm, seja de espantar os brancos e as branquelas, seja de dominar os menos espertos…

Se há algo em comum entre o Funk e o funkarioca é que ambos celebram a entrada do negro historicamente explorado e empobrecido, neste mundo do capitalismo. Mas se nos EUA isso vinha acompanhado dos discursos de Malcom X e Martin Luther King, se vinham acompanhados de um forte movimento político de aquisição de direitos e combate à segregação, aqui não! Aqui o funk carioca não é expressão de um movimento social (a bem da verdade nem mesmo nos EUA o Funk representava isso), como o Rap já foi. São produtos mercadológicos da entrada da cultura afrodescendente na indústria cultural.

Isso me leva à segunda contestação conceitual, que diz respeito à “hierarquização da cultura”, como Mariana Gomes diz em sua carta à Sherazade.

Discordo da forma como Mariana Gomes usa o argumento da hierarquização da cultura no texto.

Não vejo como pode ser bom o que é essencialmente ruim. Reproduzir ideias antropológicas do bem, não significa necessariamente abrir mão do pensamento crítico.

Não é válido hierarquizar culturas civilizatórias, esse foi o ponto em que a autora confundiu as tabuletas. Não dá mesmo para comparar a cultura tribal yanomami com a cultura nórdica e dizer que esta é melhor que aquela, ou como fez o sujeito que escreveu um artigo contrário ao discurso de Luiz Rufatto na abertura da Feira do Livro em Frankfurt, dizendo dentre outras maluquices, que a cultura Européia era mesmo muito melhor do que a cultura indígena encontrada no Brasil do descobrimento…

(O discurso de Luiz Rufatto você pode ler AQUI .O discurso, não o artigo de resposta, que ao meu ver nem vale o tempo perdido da leitura),

Não dá para comparar culturas civilizatórias, porque elas são em sua essência DIFERENTES entre si. Uma não cabe na outra, logo, não cabem comparações… logo, não dá para estabelecer melhor ou pior entre culturas. Logo, e aqui sim, não dá para hierarquizar cultura.

Mas isso é o ponto de vista macro estrutural, de autoafirmação dos povos, como se diz hoje em dia.

No entanto, quando falamos de dentro de uma cultura e sobre a mesma cultura,  há o que chamamos de manifestações culturais, fenômenos que surgem da cultura de um povo e que podem ou não perdurar por um longo prazo, tornando-se cultura no sentido amplo. Daí que as manifestações culturais podem ser esporádicas, superficiais, temporárias ou não. Podem ter significados mais profundos e sobreviverem à prova do tempo, tornando-se parte do conjunto de saberes de um povo, ou podem não sobreviver a uma geração por não representarem a maioria, ou por perderem seu poder de representação… Dentro de um mesmo universo cultural, as manifestações são a dinâmica da coisa.

Uma questão para o debate: é possível diferenciar o que é bom do que é ruim, em termos culturais, sem entrar na questão do gosto? E o que pode ser bom e o que pode ser ruim dentro da cultura? Não nego que o chamado funk carioca diz coisas profundas sobre si mesmo, mas o que ele diz exatamente? É possível valorar essa manifestação cultural reduzindo-a às suas origens, à sua genealogia, ou na observação de seu desenvolvimento? É possível ver a cultura do ponto de vista crítico?

É preciso distanciar-se do objeto de estudo para poder olhá-lo com franqueza. Não adianta olhar com simpatia, ou antipatia para um movimento como o funk carioca, porque a antropologia, a sociologia da cultura, a história, não são ferramentas que funcionam do jeito que a gente quer. A visão hierárquica da cultura, a visão elitizada, são coisas que existem, são hipóteses consistentes com a realidade, que podem ser testadas e comprovadas. Não é um modo de olhar, é uma realidade sentida por exemplo, nas salas de aula, na rua, na divisão urbana…

Mariana Gomes afirma que a forma hierarquizada da cultura é algo que deve ser combatido. A questão é como?

O tema do funk carioca dentro da sociedade é muito importante do ponto de vista acadêmico e ao contrário do que diz a Sherazade, tem profundidade sim senhora, sua relevância social, por exemplo, é comprovada pelo número de consumidores desse estilo musical e suas diversas origens: há tempos o funkcarioca deixou o Rio, deixou a favela e inundou outros lugares, outros estratos sociais. O que eles dizem sobre si mesmos nas letras, com toda a polêmica da coisificação do sexo e da mulher, são temas importantíssimos dentro dos estudos de gênero, mas esse tema, do ponto de vista acadêmico deve ser olhado com uma lupa de redução para que se possa encontrar suas origens e seu significado. Tem que ser olhado com distanciamento também, talvez uma certa simpatia seja um bom tempero, mas o controle das paixões do pesquisador é fundamental. Não é porque a Mariana Gomes gosta de funkcarioca que seu trabalho será necessariamente bom ou ruim, tudo irá depender da abordagem, do olhar e da investigação através das ferramentas do saber e do rigor acadêmico. O trabalho de Mariana Gomes, que eu não li, talvez represente isso, mas lendo a carta aberta, fiquei com a sensação de que ela cometeu um erro conceitual, levada por uma paixão pela coisa. Ela é objeto de sua própria pesquisa, porque é fã dessa manifestação cultural. Eu não sou. Estou no lado oposto do mesmo problema do distanciamento do objeto.

O meu trabalho, digamos, é opinar. Não sou especialista em funk, seja americano, seja carioca. Sou fã do estilo  americano e atuo na área de ciências humanas. Emito opiniões sobre coisas que eu não pedi para ler, mas como ler e escrever é meu trabalho, não ignoro o que me chega aos olhos pelos canais modernos de comunicação. Acredito que posso dar minha contribuição sobre o tema da cultura, porque é um tema público. E sobre o tema do funkcarioca , peço a quem ler este texto, que não vá tirando conclusões antes de chegar ao final, só porque eu assumi minha postura logo de cara. Tenho consciência de que isso pode atrapalhar uma análise mais fria, porém, no final acho que faz sentido.

Vou agora tentar concluir:

Ao contrário de Mariana Gomes, eu não tenho paixão alguma pelo funkcarioca. Também não tenho paixão alguma pela Rachel Sherazade, ou pelo que ela diz. Seja do ponto de vista da elite que diz o que é bom e o que é ruim na cultura, seja do ponto de vista da antropóloga que rejeita o elitismo como sendo cultura “ruim”, ambos os lados valorizam ramificações culturais diferentes. Ambas estão hierarquizando.

Vejamos outro exemplo:

Rachel Sherazade representa a cultura burguesa do consumo, das marcas de status, do poder opressor da mídia e do perigo que o conservadorismo arraigado representa para o desenvolvimento social. Essa é em suma a cultura capitalista, a mesma que cria um exército reserva de mão-de-obra e reduz o trabalhador ao tempo do trabalho, a uma mera máquina, com movimentos mecânicos e mente separada do corpo. Nesta mesma cultura existem os ricos e os pobres. Ambos são frutos da mesma cultura material de produção e consumo, mas ambos estão em polos opostos desse sistema econômico: um no polo de ponta de lança, outro na base social.

Assim sendo, como pode ser boa uma cultura que nasce da opressão e da produção em linha, da ignorância?

Da mesma forma, como pode ser boa uma cultura que nasce da ostentação vazia e superficial de bens materiais, calcada numa desigualdade social patológica?

Como pode ser boa uma cultura que se rasga o tempo todo em fragmentos simbólicos desconectados de qualquer territorialidade, que se mesclam em cópias mal feitas de padrões alienígenas?

Nem lá, nem cá: nem Rachel, nem Valesca. Prefiro H.D. Thoureau, quando ele diz que só há uma coisa que importa na vida: o conhecer para saber, o saber para construir e o tempo vago, o ócio, para escolher o que fazer. Leiam o “Walden”.

Em suma: não dá para hierarquizar culturas diferentes, mas dá para compreender também que não estamos falando de culturas muito diferentes aqui.

Se bem entendi o texto de Mariana Gomes, estamos falando da cultura brasileira capitalista e só podemos falar da cultura brasileira em termos gerais, se formos falar da cultura brasileira CAPITALISTA, porque há tantas expressões culturais neste país, que realmente às vezes, quando viajamos de norte a sul, temos a impressão de atravessar vários países diferentes.

Mas historicamente o Brasil é um só e temos uma cultura que predomina sobre todas as outras, que é a cultura  do capitalismo, cujo carro chefe é o eixo Sudeste-Sul e aqui, neste país, há variações mais ou menos expressivas nos valores que damos ao consumo, ou no valor que damos para a cultura das massas, do que em outros países capitalistas. São variações de nossas especificidades históricas.

Temos aqui, por exemplo, a Rede Globo, que vem ditando há décadas o que é cultura de elite e o que é cultura popular, para os populares que assistem a esse desfile de “conceitos para o povo”, todas as noites em horário nobre.

Temos aqui o sistema de progressão continuada, ou, mais comumente conhecido como aprovação automática nas escolas, que tem formado um verdadeiro exército de mão de obra não especializada, semi-analfabeta, completamente alienada das verdadeiras fontes do saber: a ciência, a filosofia e a história.

Temos também a cultura autoritária que é nossa herança mais sólida, dos tempos da escravatura.

Podemos, não tão tranquilamente, dizer que dentro da cultura Capitalista, temos sub-culturas, ou sub-produtos culturais, que não predominam sobre o todo, mas se destacam como variações desse geral, que é a cultura material do consumo e do lucro. (Antigamente esse era o nome que dávamos para as manifestações culturais. Nós as chamávamos de sub-produtos culturais, ou sub-culturas. Com o tempo os “sub’s” foram retirados da cartilha politicamente correta da sociologia, história e antropologia, porque eles têm um ranço pejorativo. Para evitar essas ambiguidades, tira-se o “sub” e substitui-se por “manifestação” ou “fenômeno”.) Manifestações culturais no Brasil não deixam de ser produtos do mesmo caldo, da mesma matriz cultural do capitalismo em sua forma brasileira. Em outras palavras afirmo que : Sherazade e Valesca são ambas produtos do capitalismo brasileiro em polos diferentes. Cada uma delas representa uma fração do todo. Uma na conservação dos “valores” burgueses, a outra na porta de entrada desses valores, ainda olhando para suas bases da pobreza, reafirmando essa identidade, mas não deixando de abraçar o que a própria Sherazade, em parte, representa: marcas de status desse capitalismo que vende tudo.

Não duvido que na vida pessoal são ambas mulheres de força, garra e fibra. Não se trata aqui de uma análise de suas personalidades. Não é nada pessoal contra uma ou outra pessoa, mas uma análise do capital simbólico que elas acumularam através de seus ofícios. Ambas estão expostas na mídia e há mais em comum entre Valesca e Sherazade do que os seus fãs e antagonistas desejariam. É só olhar por exemplo, para o valor que dão à própria aparência: Sherazade loira platinada, não aparece em frente às câmeras sem o cabelo escovado, devidamente cortado e empiastrado (piastra é a vulgar chapinha), maquiada, bem vestida e no seu melhor ângulo. Valesca ostenta um bundão que vende o seu produto, tanto quanto os cabelos platinados de Sherazade vende o dela. Quem pára para ouvi-las e vê-las, enxergam mulheres bonitas, que representam um status de poder midiático e financeiro, que venceram o machismo e alcançaram a fama.  São exemplos a serem seguidos pelos inocentes e ingênuos que as assistem. O que elas dizem, ao menos na mídia, resume-se a lixo.

Ainda que dissessem coisas importantes e que valem a pena, elas representam setores que são uma vergonha para a sociedade brasileira, a saber: a desigualdade social patológica. Apesar de estarem em extremos opostos, estão em extremos opostos da mesma moeda.  Seus polos opostos são construções sociais do capitalismo.

Milhões de anos de evolução da espécie humana para acabarmos assim: de um lado a loira platinada que reproduz na mídia a ostentação de valores superficiais de consumo e padrões de beleza, que reproduz a fala dos dominantes, consciente do poder manipulador que mídia tem nos rumos da História do Brasil. De outro, a loira que estufou seus signos de sexualidade e reproduz na mídia a mercantilização do sexo, a desnaturalização da sensualidade, da sexualidade, para o seu “enlatamento” vendável, de consumo rápido e fácil, sem qualquer constrangimento, seja de natureza moral, seja de natureza intelectual.

Ambos produtos do capitalismo brasileiro, uma cultura mundial e que aqui se traduz nestas variações, nestes sub-produtos, ou para ser mais moderna, nestas manifestações e fenômenos observáveis na mídia.

Se há lixo cultural, podemos pressupor que haja também o luxo, só que não! Se houve alguma vez um luxo cultural, ele já não existe mais. Não importa o quanto você invista, o quanto alguém gaste de dinheiro para obter uma obra, um livro, uma música… Quanto maior o luxo, mais distanciado ele está da maioria social e por isso mesmo, torna-se um símbolo de cultura vazia: saber acumulado para quem? Ninguém, exceto meia dúzia de abastados e que são parte do mesmo todo cultural de segregação material. O luxo assim converte-se rapidamente em lixo, exclusivo. Se cultura é saber acumulado, o que o tempo resgatará desses “saberes” que sabemos hoje?

O que será de Valesca Popozuda e Rachel Sherazade em cem, duzentos anos?

Qual o saber que acumulamos quando assistimos essas duas?

Voltando ao Funk. É um erro conceitual chamar o funkcarioca simplesmente de Funk. Tenta-se reescrever a história do Funk, numa apropriação da marca, por assim dizer, mas não do conteúdo.

O conteúdo do funkcarioca é a reprodução da opressão e da pobreza. É o mesmo mercado que a Rachel Sherazade vende ao público, mas com uma roupagem mais rústica, porque fala a uma população educada pelo Estado, para servir aos ricos e permanecer pobre para sempre.

Dai a importância de celebrar pessoas que conseguem fugir dessa pobreza, como Valesca, só que não! Valesca representa exatamente aquilo que ela supostamente venceu! Representa a reprodução dos valores dominantes. Qual é o saber que está por detrás do corpo bombado, das letras infames, do ritmo repetitivo, da vulgarização do sexo, da ostentação de símbolos de status? O povo continua sendo alimentado de pão e circo. O saber de fato não existe, é só uma ilusão de representação.

Tem potencial transformador?

Não! Não para melhor!

A cultura da favela é a cultura da favela. Não pode ser dos bairros de classe média, ou do Brasil. A cultura que tem raiz na pobreza, não sobrevive diante do dinheiro. O dinheiro a absorve e a transforma. Não é uma questão de força, é uma questão de estrato social. A sociedade é dividida entre ricos e pobres, querendo ou não. Quando a favela sai da favela, ela vira classe média. Carrega a favela dentro de si, mas transformada, já inserida em outro estrato, imbuída de novos valores que passarão a norteá-la.

A cultura da pobreza é a cultura de quem não tem acesso aos bens culturais, mas sabe manejar o seu próprio capital simbólico . Sabe se vender como pitoresca, ou divertida e o Brasil é mestre nisso desde a invenção do carnaval.

Tomemos o exemplo do Rap como um contraponto ao funkcarioca. Há o Rap gangster com letras que fazem apologia aos sistemas do crime organizado, há o rap misógeno, mas também há o rap poético e (arrisco quebrar o tabu) literário. Nestes (a que chamo de poéticos) há buscas pela melodia e pelo significado e são manifestações culturais legítimas de superação das condições impostas pelo capitalismo: são nas rodas de disputas de Mestres de Cerimônias e na dança de rua, que os garotos aprendem a manejar a linguagem poética e literária, os ritmos, as rimas. É educativo e quando fala, traduz anseios, denúncias, consciência política… O Rap poético é expressão de desejo: de saber mais, de poder mais, de querer mais do mundo e das oportunidades que em geral, são suprimidas dos estratos da pobreza.

O funk carioca não consegue representar tudo isso. Enquanto o Rap brasileiro buscava as rimas e a revolta, o funk carioca é celebração do sexo e do poder. É afirmação dos valores da burguesia.

Não quero com isso dizer que é dever da favela produzir a revolução, ou manter o tom da revolta o tempo todo, ou ser pitoresca para ser vendável, ou aceitar sua condição de pobreza e baixar a cabeça para a cultura da elite, ou da burguesia. Estou apenas observando que quando o funk carioca celebra a bunda, o sexo, o carrão, as correntes de ouro, o poder, o que ele está celebrando é exatamente isso: a cultura da burguesia assimilada e traduzida para aqueles que ainda não são burgueses, mas estão adquirindo paulatinamente, um maior poder de consumo e tem na burguesia, o seu objetivo. É a mesma assimilação que podemos ver nos registros históricos dos séculos XVIII e XIX, daquele burguês que ficando rico, compra um título de nobreza da aristocracia. É em suma a celebração da superficialidade. Não é superação, como alguns Rap’s pretendiam ser, mas reafirmação do mesmo valor cultural que produz as favelas e os becos.

Não estou dizendo que é ruim para a favela atingir o estrato da burguesia e adquirir poder de consumo. O que estou dizendo é que neste processo de mobilidade social, algumas coisas que são boas estão sendo perdidas.

Não é só a favela que perde, todos nós que desejamos uma sociedade mais igualitária perdemos. Podemos ganhar em diversão nos bailes e nas paqueras, mas no final das contas, a celebração da superficialidade é a cultura dominante. É o capitalismo na boca dos pobres, transformando a vida deles para melhor, mas por outro lado podando a visão crítica, a busca contínua pelo saber mais, poder mais e querer mais que havia, por exemplo, na manifestação do Rap dos anos oitenta e noventa. É de certa forma a voz da conformidade com as migalhas que extraíram estas pessoas da pobreza extrema e as alçaram ao primeiro degrau do poder de consumo.

Sherazade devia bater palmas a isso, já que ela representa o outro lado da moeda, aquele que não acredita fazer parte do mesmo mundo que cria os pobres.

Daí podemos concluir que há, dentro de uma cultura, manifestações que são boas e manifestações que são ruins. Esta hierarquização palpável na vida cotidiana, não deve ser confundida com a visão analítica e crítica que as ferramentas da sociologia e da antropologia nos proporcionam. Estas ferramentas nos dizem que cultura boa é a cultura do saber e cultura ruim é a cultura que reproduz a miséria, há de certa forma uma hierarquia nisso que é muito diferente da hierarquização proposta pela Sherazade, quando ela pergunta se há profundidade no tema do funkcarioca e duvida da ligação que este tem com as questões do feminismo. Para Sherazade, cultura ruim é aquilo que ela (e os valores que representa), não gosta.

Acima afirmei que não dá para tomar como bom o que é essencialmente ruim. É essencialmente ruim ver a apologia de valores vazios, que não agregam conhecimento e não empoderam os agentes da transformação. Isso é verdade para Sherazade, mas é verdade também para Valesca Popozuda. Se a sociedade brasileira, que neste momento começa voltar os olhos para si mesma querendo mais, não consegue ter uma visão crítica, é natural que tenhamos uma jornalista em horário nobre determinando como devem ser os temas pesquisados pelas Universidades, é natural também que a bunda se torne mais importante do que as exigências pelo acesso ao saber, à ciência, à filosofia e à história.

Neste sentido, não dá para negar que existe uma hierarquia na cultura, ao menos uma divisão binária entre a cultura da reprodução dos valores que criam as injustiças sociais, e a cultura que pretende a superação desses valores e uma sociedade mais igualitária.

Sem entrar na questão do gosto, e numa sociedade que pela primeira vez em décadas volta os olhos para si mesma, acho que é por aí que podemos definir o que é bom e o que é ruim em termos de manifestações culturais.

Daí que se deve buscar alçar os patamares mais desenvolvidos da cultura, não como hierarquização elitizada, mas como desenvolvimento humano, tendo no horizonte dos objetivos a transformação da sociedade capitalista desigual numa sociedade mais igualitária, com distribuição mais justa de direitos e saberes.

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