A REDENÇÃO DO ESTUPRADOR E A HIPOCRISIA NACIONAL

Enquanto meus colegas estão tratando do aniversário da ditadura, prefiro vir aqui tratar da pesquisa do IPEA sobre estupro. A pesquisa publicada esta semana causou furor nas redes sociais, engatilhando manifestações como #nenhumamulhermerceserestuprada, com fotos “selfies” de mulheres (e homens) segurando cartazes com os dizeres “eu não mereço ser estuprada” , em apoio ao fim da “culpabilidade da vítima” nos casos de estupro.

O Deputado Federal Romário, em sua página do Facebook, publicou seu apoio às manifestações de repúdio à culpabilidade da vítima, demonstrada pela pesquisa, onde a maioria dos entrevistados diz concordar com o fato de que mulheres que se vestem com roupas curtas, ou se comportam mal, MERECEM ser atacadas.

Agora, o interessante aqui, não é tanto o apoio dado pelo Deputado Romário à causa, mas sim os comentários feitos em sua página sobre o assunto. No momento em que escrevo a postagem já teve mais de 14.700 “curtidas”.

Selecionei aqui algumas respostas que exemplificam a abordagem da pesquisa:

SOBRE A PESQUISA

Me envergonha um deputado que sempre lutou contra a corrupção deste país ser conivente com tal FALSA pesquisa. Tal pesquisa foi comprovada que as perguntas aos entrevistados não foram essas e sem falar na tamanha farsa em si que é essa pesquisa pelo Ipea. ATÉ HOJE NÃO ENCONTREI UM HOMEM SE QUER QUE É A FAVOR DO ESTUPRO DA MULHER DEPENDENDO DE SUAS VESTES. E olha que já procurei em redes sociais, internet e em tudo quanto é lugar. Cadê esses 65% da população que ninguém vê?
Esta pesquisa nada mais é do que uma forma de ofuscar o escândalo das refinarias da presidenta Dilma. E parece que o governo está conseguindo fazer isso, infelizmente.
Sou machista, E SOU CONTRA QUALQUER TIPO DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER.

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Se o fato de andar com pouca roupa fosse motivo de estupro, os Índios e os nativos estrupariam suas mulheres todos os dias, e sabemos no entanto que isto nao acontecia.
Estupradores sao criminosos, e nao se proteje criminoso nem com pesquisa dirigida. O IPEA à meu ver esta incitando a violencia contra a mulher divulgando e publicando um resultado sem nenhum teor produtivo para a nossa sociedade, haja vista que maioria das pessoas sao influenciadas e conduzidas por pesquisas.

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Essa pesquisa é mais falsa que nota de 3 REAIS! É um engodo pra desviar a atenção da CPI da PETROBRAS! 65% significam 2/3 da população brasileira, isto é, 2 de cada 3 brasileiros defendem o estupro? PQP! Não dá pra acreditar numa merda dessas…
Quantas pessoas vcs conhecem que defendem o estupro? Eu não defendo e vcs dois tb não, fazemos assim 3 pessoas! Tb não conheço NINGUÉM QUE DEFENDA UMA ABOMINAÇÃO DESSAS! Onde está a proporção que a pesquisa fala?
Fora que a maioria dos entrevistados (65%) eram mulheres, isto significa que mulheres defendem o estupro? Isso é machismo? Fala sério!

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A pesquisa retrata a realidade. Não se pode esconder o sol com a peneira. O corpo da mulher é o maior bem de consumo da socidesde atual. Assim como a super exposição de bens é um incentivo aos crimes patrimonial e financeiros e a recomendação da polícia e de evitar a ostentação o mesmo vale para os crimes sexuais seja de mulheres, crianças gays ou o diabo a quatro. Manifestações histéricas ou legislações mais duras não detém criminosos.

SOBRE A MANIFESTAÇÃO DO EUNÃOMEREÇO…

Mas as mulheres tiram fotos semi-nuas, pensem nisso. É um incentivo pro estuprador ir atrás

SOBRE VESTIMENTA E COMPORTAMENTO SOCIAL DAS MULHERES

acho que tem algumas mulheres que exagera tanto no comportamento como nas roupas e gosta de provocar, tipo ficar sem sultiã em qualquer lugar, cruza as perna mostrando a calcinha “qndo ta usando” etc … e tem marido e pai que é trocha e deixa … dessas vagabunda eu não tenho dó não, que se foda pra la, é isso que elas ta cassando mesmo se vestindo desse jeito, um frio de -10° e a praga ta de tomara que cai e uma saia que mais parece um cinto, azar é dela, lógico que roupa não justifica esse crime, minha tataravó pode sair nua que ninguém vai pega ela… esse país não tem segurança nem pra gnt descente quanto mais pra vagabunda … mais lamentável-mente esses vagabundo estrupa ate moças e mulheres descente, merecem a pena de morte.

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“Concordo quando o Sr. deputado diz que um short curto, uma saia ou um vestido sensual não é motivo pra uma mulher estuprada. Agora uma micro saia, micro short ou micro vestido pode estimular desejo a ponto de cometer tal ato. O que falta a população ter educação para tal libertinagem”. Ser uma mulher linda sensual sem precisar algum tipo de roupa “micro” diminui a chance de tal ato covarde, agora querer ser atraente precisando mostrar o corpo através de mini roupa, o que o Sr. deputado acha que pode acontecer? A sociedade é mal educada e a mídia é grande culpada porque sensualidade a gente vê a qualquer hora do dia. Mulheres usem sua liberdade não pra mostrar o corpo o dia inteiro, mas para mostrarem a beleza. Beleza não precisa de roupas “micro”, mas de caráter e atitude! Usem a inteligência porque vocês são lindas por naturezas!”

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concordo com o que dizem as placas q ninguem merece ser estrupada, mas que tem mulheres semi nuas na rua pedindo para serem estrupadas, tem sim e aos montes… isso é uma vergonha a sociedade achar que elas estao vestidas e nao dispertarem nenhum interesse sexual nos homens, ande vestidas q nunca acontecera com vcs!

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permita-me discordar de você querida… se você fica pelada na frente de um homem em situação não costumas, é claro que, se você tiver atrativos físicos, ele vai te olhar dos pés a cabeça e não vai ser como se fosse a irmã dele. Não é ser machista é ser realista. A natureza do homem é muito diferente a dá mulher e os entendidos de plantão que me tacharem de machista, é bom estudar a história da humanidade. indico um livro muito bom…”por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor”. Abraços e Paz.

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E as mulheres que vestem a burca, que também são violentadas e estupradas, ninguém fala, não é o habito que faz o monge

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Agora a pérola mor: “Mulher que não se respeita merece pica mesmo. Sou MACHO e ninguem mandou ficar me provocando”

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Bom, chega de depoimentos né? Já dá pra perceber uma série de coisas nesta pequena seleção de pérolas da inteligência brasileira.

A primeira questão importante a ser realçada é a da paranoia de alguns setores da sociedade que acreditam que a pesquisa é uma cortina de fumaça para ocultar o escândalo da Petrobrás e desviar a atenção do público.

A segunda questão é a da interpretação da pesquisa.

Terceira: a forma como homens e mulheres encaram a moralidade e sua relação com o estupro.

A pesquisa foi encomendada ano passado, foram entrevistadas cerca de 4.000 pessoas e cerca de 65% dos entrevistados eram mulheres. As questões feitas e parcialmente divulgadas parecem ser: Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas? e Se as mulheres soubessem como se comportar haveria menos estupros?

Obviamente que as questões, se foram exatamente estas, são bastante capciosas, porque apresentam armadilhas retóricas em sua formulação. A primeira questão fala de ataque e não de estupro, a segunda questão levanta a opinião do entrevistado sugerindo um moderador moral, “se soubessem como se comportar”, ou seja, ela parte do pressuposto de que as mulheres “não sabem se comportar”. Pode-se criticar a pesquisa por estas armadilhas, por outro lado, para um bom intérprete, o fator tendencioso contido nas questões tem por objetivo testar a capacidade crítica do entrevistado. Alguém equilibrado, com alguma educação crítica perceberia no ato que a questão foi feita para “pegar” desprevenido aqueles que se baseiam exclusivamente pelo senso comum. Portanto, não é uma pesquisa que determina se a sociedade brasileira concorda ou não com o estupro, ou a violência sexual e sim, uma amostragem das condições em que a sociedade brasileira compreende o estupro, o papel do criminoso e da vítima.

Relatos de vítimas de estupro nos dão uma boa noção do que acontece no meio social e jurídico. No Brasil houve o caso absurdo de um homem absolvido do crime de estuprar três garotas de 12 anos, porque segundo a juíza, “elas já se prostituíam”, ou seja, a prostituta não tem o direito de dizer “não”.

http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/politica-cia/onde-e-que-vamos-parar-stj-absolve-homem-que-estuprou-tres-meninas-de-12-anos-e-revolta-senadores/

Voltando à pesquisa, seu objetivo é portanto, tirar uma média da opinião do brasileiro acerca das causas do estupro e da “culpabilidade da vítima”. Historicamente, o Brasil é um país que chegou atrasado nos direitos da mulher. Até a promulgação da constituição de 1988 havia por exemplo o artigo da “defesa da honra” quando um homem praticava um crime passional contra uma esposa adúltera. Havia também a lei de “devolução”, onde um homem que descobrisse logo após o casamento que a mulher não era virgem, podia simplesmente anular a união. Estes são exemplos da cultura jurídica tacanha que imperou neste país por todos os séculos desde seu descobrimento até 1988. De lá para cá, muita coisa mudou, mas não mudou ainda o suficiente, como mostra a pesquisa e como demonstrei aqui a partir das respostas dos internautas.

Para a maioria das pessoas que se manifestaram sobre o comportamento da mulher e sua relação com o estupro nesta pesquisa, parece escapar por completo a percepção de que o homem, como ser racional, é dotado de todas as ferramentas necessárias para o controle de seus impulsos sexuais. Para essa parcela da população, as vestimentas e o comportamento da mulher, simplesmente justifica que os homens, por “seus instintos naturais” percam o controle e estuprem. Escapa da percepção do senso comum que o controle dos instintos individuais é fundamental para que uma sociedade humana se constitua como tal. Assim, argumentos tais como “se ela não se respeita, por que eu vou respeitá-la?” invertem completamente os valores humanos. Neste argumento, é do comportamento humano se deixar levar pelo descontrole, pelo impulso, pois faz “parte do instinto do homem”, mas não é digno de respeito humano aquela que usa uma roupa indecente, ou se comporta de forma indecente, porque isso de certa forma dá margem para o descontrole.

Ou seja: a obrigação de manter o controle dos impulsos não é do indivíduo, mas da coletividade. É a coletividade das mulheres, neste caso, que deve controlar o impulso sexual dos homens, vestindo-se adequadamente e comportando-se adequadamente. O homem torna-se assim inocente e vítima nas situações em que a coletividade feminina falha em controlá-lo. É inocente porque não tem responsabilidade sobre uma força maior que é o  seu “impulso sexual” e é vítima porque é ele quem supostamente é atacado, quando diante de uma situação de “desrespeito”, onde a mulher lhe instiga o impulso usando roupas curtas, ou se comportando de forma provocativa.

Interessante a resposta de um dos internautas que diz que o corpo da mulher é um bem de consumo valorizado no Brasil. Se a coletividade incentiva a exposição da sexualidade feminina de forma cada vez mais ostensiva, podemos afirmar que a coletividade concorda com isso e que portanto não devia ser ofensivo usar um micro-shorts, uma micro-saia e não devia ser esse o motivo que leva o homem a perder seu controle. De fato não é. Se observarmos os casos de estupro relatados, há um universo de situações que destoam desta percepção da exposição do corpo como fator determinante. Casos de estupro em família, casos de estupro por ódio racial, de idosos, crianças, meninos, etc, que fogem desse padrão do senso comum. Também foge desse padrão os estupros cometidos em países onde as mulheres são oprimidas e só possuem uma única forma de se vestir e se comportar em público, mas aí estamos falando de outra cultura. Na cultura brasileira a sexualidade exacerbada que vemos na mídia, no consumo, nas festas populares, nos fenômenos de massa, é generalizada e tratada como algo natural. Em contradição direta com esse padrão, os casos de violência contra mulher (estupro, espancamento, abusos, assédios, assassinatos) são alarmantes para o século em que vivemos, com todo acesso que possuímos à informação e com todos os progressos feitos no sentindo da diversidade cultural e religiosa. Se há uma relação entre a sexualidade exacerbada e a violência contra a mulher, esta relação não é óbvia no Brasil, pois o mesmo homem que aplaude a exposição da bunda na televisão, pode ser o que espanca a esposa e a namorada, porque ela vestiu um shorts. Seria mais fácil compreender se estivéssemos numa sociedade que considera absurdo e repudia a exposição, por exemplo, da “mulata globeleza” nos comerciais televisivos da rede Bobo de televisão, durante a “sessão da tarde” para crianças e adolescentes. Se estivéssemos numa sociedade assim, a condenação aos shorts, mini-saias, mini-blusas e a relação entre estas “transgressões” e a violência sexual poderiam ser diretas, ou óbvias. Mas não é o caso. Vivemos numa sociedade que exporta a bunda das mulheres, que vende a imagem de sexo fácil, que instiga o turismo sexual, que celebra a nudez nas praias, nos carnavais e nos bailes funkcariocas. Chega a ser surpreendente que esta mesma sociedade responda às questões da pesquisa, da forma que o fez: relacionando a violência sexual com a forma da mulher se vestir ou se comportar.

O senso comum investigado nesta pesquisa expõe a contradição de uma sociedade que vende o sexo fácil e aceita a objetificação do corpo da mulher, ao mesmo tempo em que condena a mulher como culpada, ou cúmplice da violência sexual, porque ela expõe seu corpo como objeto. Nesta contradição os homens são redimidos do crime de estupro, pois pressupõe-se que diante da exposição ostensiva do corpo feminino, eles não tenham meios para se controlar. Assume-se a irracionalidade como um dado natural do homem, quando devia ser o contrário. Reflete sobretudo a miséria da educação do brasileiro em geral, que desconhece os fundamentos da cooperação social e a importância de se cultivar o intelecto, a racionalidade, que nos distingue dos animais selvagens.

Ao relacionar a violência sexual com vestimenta e comportamento, as pessoas que consideram estes fatores como “causas do estupro”, demonstram uma moralidade recalcada, um repúdio à objetificação do corpo da mulher, à celebração da sexualidade exacerbada. Digo recalcada, porque 66% dos entrevistados respondeu “sim”, ao mesmo tempo é a maioria da sociedade brasileira que consome os produtos sexuais à venda nas tv’s, rádios, revistas, internet e por aí vai. A contradição óbvia não pode ser compreendida pela lógica mais simples e precisa ser analisada a fundo pelas ciências humanas, para que possamos compreender a natureza da nossa hipocrisia.

 

 

 

 

 

 

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