AS ELEIÇÕES E A PROFECIA AUTO-REALIZÁVEL

Muitos bons textos andam circulando  pela Internet sobre o recente processo eleitoral e sua repercussão na sociedade, de modo que voltar a falar sobre o assunto será um pouco como chover no molhado. Contudo urge o sentimento de indignação e calar neste momento, opiniões e chamados para o debate de ideias, seria um crime.
O que tenho lido na mídia e nas redes sociais é algo que em meus quase quarenta anos de idade, sendo 20 deles dedicados a algum tipo de reflexão ou ação social, jamais vi.
Falo da ascensão de uma intolerância anti-democrática que seria cômica, se não fosse muito, muito trágica.
Há pouco mais de um ano iniciei minhas atividades neste blog, migrando do antigo endereço no blogspot, movida pela euforia das jornadas de Junho e toda atmosfera transformadora que as envolvia. Nestas paginas passadas da nossa História, fiz algumas análises e algumas previsões que o tempo provou serem verdadeiras. A polaridade dos discursos, o fechamento dos espaços de diálogo, a radicalização das idéias, foram alguns produtos amargos dessas observações, de modo que o hoje não seria assim, tão surpreendente, não fosse o fato de estarmos nos aprofundando no caminho da autodestruição, enquanto cultura, sociedade e democracia.
Esse sentimento catastrófico não me parece inteiramente compartilhado com aqueles setores responsáveis pelo combustível que alimenta a máquina Brasil. O setor produtivo segue quase impávido colosso, enquanto o gigante adormecido, caminha sonâmbulo devorando os próprios filhos. Neste momento todos somos os donos da verdade. Ignoramos dados estatísticos (quem confia neles?), ignoramos nossos semelhantes (quem precisa deles?), ignoramos nossas bases morais (quem acredita nelas?), nossos valores (quem os compartilha?), nossa História (quem a conhece?) e nos debruçamos com fúria sobre nós mesmos, tal qual tribo canibal que devora os inimigos vencidos para deles extrair o poder.
O que está em jogo, meus caros, há muito deixou de ser o sentimento legítimo de mudança, evolução, e/ou entendimento.
O que está em jogo parece-me, um prêmio simbólico pela posse da verdade, onde ela já não mais existe.
Da mesma forma que jornais, institutos de pesquisa e candidatos, fabricam suas próprias verdades, o cidadão comum, em crise de confiança, se apega nas que lhe parecem mais simpáticas, seja porque convém aos seus próprios interesses, seja para não parecerem desprovidos de opinião, num mundo em que não parece mais haver amarras ao livre pensamento.
O problema é que as amarras existem, invisíveis e avassaladoras, na própria vastidão de informações contraditórias, onde tudo é falsificável. Um exemplo: Li ontem no facebook, uma certa cidadã dizendo que não devemos confiar na ^Carta Capital^ e no ^Pragmatismo Político^, porque são veículos jornalísticos pagos pelo PT. Tal afirmação termina assim, a seco, sem um acompanhamento do tipo: também não devemos confiar na ^Veja^ e no ^Estadão^, porque são veículos jornalísticos alinhados com a oposição ao PT. Não. Para esta cidadã o jornalismo válido é apenas aquele que concorda com ela, ou com o qual ela concorda (essa relação tem sempre uma origem que escapa à percepção da maioria das pessoas, mas em geral arrisco a dizer que você concorda com a informação que está mais disponível desde que você começou a se entender por gente, assim, mais uma vez, o monopólio dos meios de comunicação se mostra tóxico para o pensamento e o debate social, pois na medida em que a diversidade é suprimida da formação dos indivíduos, o que se tem como resultado é esse pensamento monolítico, que não consegue fazer a leitura da diversidade e chegar a uma conclusão comparativa).
Os milhões de donos da verdade se apegam no princípio de que se ela não está no outro, só pode estar comigo, ou então, ela sequer existe.
A Verdade sempre foi uma das questões filosóficas mais difíceis e hoje em dia, qualquer um se julga seu dono, enquanto ninguém de fato a possui. Quem tem razão? Aqueles que em nome da mudança estão dispostos a destruir o princípio da democracia? ( Os que falam e assinam petições pelo Impeachment) Aqueles que abdicaram da mudança por não terem encontrado uma razão maior para ela? (e que votaram no PT porque não viram Aécio como alternativa) Aqueles que nem acreditam que mudar seja uma possibilidade? (e anularam seus votos, calando-se diante da decisão da maioria)
E que mudanças são estas?
Fala-se sobretudo em moralidade política e o ódio anda a rédeas soltas contra os que reelegeram a presidente Dilma, que representa, pelo seu cargo e partido, os escândalos mais escabrosos da política. Esquecem que a alternativa proposta na figura de Aécio Neves, também representa um partido na berlinda por escândalos tão escabrosos quanto os do PT. Em meio a esse mar de verdades seletivas, onde só conta aquela verdade que me interessa, enquanto que a verdade do outro tomo sempre por mentira, monta-se um palco de horrores que não beneficia ninguém. E entre as ^verdades^ ditas sobre ambos candidatos ou partidos, existem aquelas afirmações que são absolutamente fantasiosas, delírios e alucinações propagados pelas redes sociais sabe-se lá a partir de quem e que se tornam virais. Pior tais ^verdades^ ganham contornos de torcida: se você acredita nelas você é dos nossos, se não acredita você é deles. Radicalização em torno de fanatismos pouco saudáveis ao debate político e que tem por objetivo forçar uma situação de ditadura.

É senhoras e senhores, aqui entra aquela análise simplista de que a maldade que você vê em mim, é geralmente a maldade que você tem dentro de você.

Tá, até aí é possível compreender que nem todo mundo tem tempo de checar informações que correm pelas redes sociais, mas daí a acreditar que há um golpe comunista em marcha, que estamos virando Cuba, ou Venezuela, de que os conselhos consultivos populares e o plebiscito pela reforma política são medidas bolivarianas, de que o PT financia o treinamento de militantes do MST em Cuba e Venezuela, de que as eleições foram fraudadas! De onde o povo tira tanta imaginação catastrófica? Há milhares de teorias da conspiração acontecendo nas redes sociais neste momento. Talvez haja alguma verdade por detrás de tais boatos, coisas do tipo: é verdade que o PT tem uma certa admiração por Hugo Chaves, é verdade que alguns militantes vão a Cuba para participar de congressos do Partido Comunista (assim como outros vão a Davos participar de congressos de Economia, alguns vão a Roma participar de Congressos de Teologia e assim por diante), e talvez uma ou outra urna tenha sido fraudada nestas eleições, porque vivemos num país cheio de ladrões e pessoas que agem de má fé, mas daí a crer que tais comportamentos e ações são generalizadas e que estão pondo em marcha uma revolução comunista!  São tantas asneiras que  um senador da República chamou de ^débeis mentais^ as pessoas que acreditam nelas.

Mas se o dito popular é verdadeiro e a maldade que você vê em mim é geralmente aquela que você tem dentro de você, não é surpresa alguma observar que estes clamores fanáticos anti-comunistas, anti-petistas, vem exatamente das mesmas pessoas que defendem a volta da ditadura militar!

Estranho recordar a semelhança entre estes discursos e os que antecederam ao golpe de 64. Mais estranho ainda são as pessoas alegarem que se ^gostamos de comunismo, devemos ir viver em Cuba^, porque posso dizer o mesmo sobre elas: se gostam de ditadura, experimentem viver em Cuba!

O que escapa a estes donos destas verdades é que nunca, jamais (vou corrigir) NUNCA, JAMAIS, em nenhum lugar, em toda a História, houve uma ditadura, uma tirania em que os que colaboraram para ela não fossem, mais cedo ou mais tarde, perseguidos por ela. Se você é a favor da ditadura, porque acha que ela finalmente fará o governo que você merece, aliado aos seus interesses saiba que: o poder seduz e o tirano, pela sua própria definição, não divide seu poder com ninguém.

O ^Blog do Noblat^ no Facebook é uma das páginas que concentra o maior número de ^débeis mentais^, ou delirantes, ou fanáticos na rede. Sinceramente não compreendo porque elegeram o Noblat como seu mestre.Tá certo que o jornalismo do Noblat é claramente anti-petista, por outro lado há que se reconhecer nele o mérito de abrir espaço para algumas opiniões contrárias a esse mantra. Também devemos reconhecer o mérito dele manter-se dentro de seu próprio escopo de opiniões. Nenhum jornalista é obrigado a suprimir sua posição política. Dentro desse escopo, Noblat é anti-governista, mas até onde sei, não fabrica inverdades. A mim serve como fonte de informação, que filtro a partir do conhecimento de sua posição, que nem sempre corresponde à minha, mesmo assim, não consigo atinar porque tantos esquizofrênicos o seguem e postam ali, suas teorias conspiratórias, seus delírios xenófobos, racistas e suas radicalizações fantasiosas.

Ano passado, em setembro, no artigo que redigi aqui, já chamava a atenção para o fato de que a radicalização dos discursos não tinha nada de engraçado e dividia o debate em dois pólos indialogáveis (existe esta palavra?). De lá para cá a situação só se agravou. Se antes a mídia ria dessas idiotices, hoje ela as patrocina ratificando a Divisão do Brasil em dois pólos, sem fazer qualquer esforço para uni-los frente a informações claras e transparentes. O que vemos é o contrário disso: são mentiras e fabricações, delações vazias e sem provas (geralmente contra um único partido), destaques sensacionalistas para pessoas e declarações infundadas e por aí vai.

Os baba-ódio anti-petistas me acusam de petralha quando chamo atenção para isso. Bem, quem me lê sabe que posição política ocupo, sabe que não sou petista, mas não sou de direita, que entre PT e PSDB há um arco-íris de posições  e posso estar em qualquer uma delas, já que sou livre e metamorfose ambulante. O fato é que clamo pela justiça. Não é justo ouvir tanto sobre a Petrobrás e quase nada sobre a Alcom e o Metrô de São Paulo na mídia corporativa. Nâo é justo ouvir tanto sobre o mensalão petista e quase nada sobre o mensalão mineiro. Não é justo ouvir sobre as ingerências da presidência e quase nada sobre a ingerência da Sabesp e do governador de São Paulo. Não é justo com quem? Com o PT? Bem, acredito que não, na medida em que ele está sendo crucificado, por outro lado, se está sendo crucificado isso se deve a dois fatores: o de não ter feito a regulamentação da mídia quando pode e o de não ser ético. Mas aqui defendo a justiça conosco mesmo, brasileiros, que somos obrigados a engolir só ração de carne, quando há no mercado ração de frango, de fígado, de vegetais, de fibras…

O Brasil nunca antes esteve tão perto de dar um passo em favor de si mesmo, buscando alternativas, mudanças significativas e o ingresso definitivo num mundo mais justo, mais rico, mais apreciável, só que tudo isso pode ser perdido se não nos unirmos num debate saudável, sem ódio, sem radicalizações, sem asneiras e delírios, um debate fundamentado sobre a única verdade que realmente importa, que é o desejo pelo bem comum da nação.

Bela utopia esta, porque não dá para ser posta em prática onde não temos em quem confiar a não ser em nós mesmos e na nossa parca percepção da realidade, mediada pela mídia corporativa e pela péssima educação em ciência que em geral recebemos. Hoje ouvi de uma tal que a classe acadêmica não é bem informada, porque votou na Dilma. Votou nela porque ela subiu os salários dos professores acadêmicos, portanto, votou nela pensando em seu próprio umbigo e não no bem estar social. Argumentei que por esta lógica, o certo então seria votar no candidato que congelou os salários dos professores, diminuiu os investimentos em pesquisa científica, terceirizou serviços acadêmicos e sucateou as universidades públicas!

Gente! É óbvio que cada um vota no candidato que lhe convém. Os motivos existem de ambos os lados e definitivamente a corrupção, a ladroagem também! Logo, ninguém votou nestas eleições pensando em eliminar o ladrão, pois se assim fosse, teria ganho Marina, ou Luciana, ou Eduardo, ou Levi, ou Pastor! Votamos em quem de alguma forma representa, ainda que mal e porcamente os nossos próprios interesses e venceu a candidata que representa os interesses (ainda que mal e porcamente) da maioria.

Enquanto se fizer alarde sobre algo tão simples, como se fosse uma desgraça, não há mesmo como o Brasil superar suas dificuldades.

Aqui corremos o risco de cair na história da profecia auto-realizada: profetiza-se a desgraça, depois faz-se de tudo para que ela aconteça, apenas para poder dizer ^viu? eu estava certo!^

Isso não é justo para conosco mesmo! Você odeia o PT? Sinto muito, eu também odeio funk ostentação, mas nem por isso ele vai deixar de existir, ou eu vou conseguir evitar ouvi-lo nas ruas! Temos que aprender a conviver com essas adversidades. Você odeia o PT e os que votaram na Dilma, mas é sua obrigação, assim como é daqueles que votaram nela, conversar civilizadamente com estas pessoas sobre o que queremos e precisamos para o Brasil. Assim como eu devo pedir com toda educação do mundo para o funkeiro diminuir o volume e ele, educadamente deverá acatar meu pedido, uma vez que a rua é pública, ou seja é dele e minha também.

Eu sei que é sonho e que esse exemplo do funkeiro talvez não seja o melhor, mas foi o que me ocorreu agora para exemplificar algo simples e que acima de tudo, acima de partidos, acima de todas as causas eu defendo: a civilidade.

 

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