COMO DIALOGAR COM FASCISTAS?

O livro da Márcia Tiburi “Como conversar com um fascista” é uma tentativa honrada de estabelecer diálogo positivo, pedagógico, com a criatura fascista que ela toma por alguém limitado, talvez por falta de acesso a informações, ou má formação.

Sua receita é o diálogo socrático, aquele pontuado por perguntas, que levam o fascista a explorar os limites de seu próprio conhecimento e inevitavelmente, descobrir sozinho suas próprias contradições. Para Tiburi, uma vez encarando as próprias contradições, o fascista não tem outra alternativa senão rever seus conceitos.

Na verdade a filósofa é uma otimista. Realmente seu método funciona para calar fascistas enquanto estamos pacientemente respondendo com perguntas. Quando finalmente o levamos para o nebuloso campo das contradições humanisticas de suas crenças que transitam entre o bem e o mal , como se não houvesse a palavra contradição em seus dicionários, que os fazem ter que distorcer a História para formarem sentido; bem, quando chegamos a esse ponto no diálogo, eles fogem.

Tem sido assim, sempre será assim. Você nunca irá ver um fascista encarar a contradição e tentar resolvê-la. Antes, verá eles se fechando numa concha, como fizeram nos últimos trinta anos, em que predominou no Brasil, a narrativa da esquerda.

 

Depois do episódio nojento em que um deputado, que não deve ser nomeado para que seu nome não entre na História (ao menos na história desse blog que vem há anos montando um dossiê da política nojenta que se faz neste país), durante a votação que consolidou o Golpe de Estado, homenageou o comandante Ustra, psicopata torturador da ditadura militar, é com náuseas que vejo proliferar na rede, homenagens “copycat”, de fascistas que agora não tem o menor pudor de se mesclarem entre nós e emitir aberrações lesa-humanidade, como se tratassem de meras “opiniões” e não crime, internacionalmente reconhecido.

Um exemplo que os fascistas, quando confrontados sobre essa questão gostam de dar é: mas ” e vocês que homenageiam Ché, Lenin, Mariguela, Lamarca e outros terroristas que torturaram e mataram…”

A História está cheia de heróis e bandidos assassinos. Muitos foram revisitados ao longo dos anos, desconstruídos e reconstruídos numa roupagem mais realista, menos ufanista. Disso não há dúvidas, mas comparar Ustra, torturador psicopata da ditadura, com Ché, ou Lenin, ou outro herói comunista, é uma tentativa patética de ressignificação simbólica.

Porque não é essa a leitura que a História faz: primeiro eles foram autores, antes de revolucionários, antes de assassinos.

Segundo: porque são mais lembrados pelo que escreveram e suas ações são justamente o foco das críticas que lhes são feitas desde sempre e as justificativas mais comuns, que tentam explicar ações de violência como “inevitáveis”, nem sempre são suficientes para apaziguá-las.

Terceiro: para desconstruir essa imagem simbólica, não basta uma comparação seca, bruta. Ustra entrou para a História como torturador psicopata, Ché, como revolucionário heroico e mártir. Você fascista, que defende Ustra como seu herói pessoal, saiba que pode até haver um fundo de razão quando você diz que Ché era também um torturador e assassino de inocentes, mas não é assim que ele é lembrado e por mais que você queira, sua desconstrução acaba sendo patética. Símbolos são muito mais poderosos, muitas vezes, do que a própria realidade.

Ustra, não há dúvidas, não se humaniza, mesmo quando aceitamos que Ché era um torturador também, ou que a esquerda devia parar de prestar homenagem aos ditadores.

Aliás, quando aceitamos que Ché também era um torturador, o que salta aos olhos é a absoluta falta de caráter da pessoa que ufana Ustra como herói. Fica óbvio que ao acusar a esquerda de ufanar Ché, o mau caráter se esconde atrás da indignação alheia , por ter tentado forçar uma ressignificação simbólica e assim, ele mascara o próprio ato de idolatrar um psicopata torturador da ditadura, para poder continuar idolatrando-o, justificado agora no “você também faz isso” e ainda encerrando o debate sentindo-se vitorioso.


Mas eu insisto. A ressignificação simbólica feita nesta tentativa vil de distorcer a herança histórica é patética, é pontual e não sobrevive na massa. É só mais um recurso retórico (porque é só isso que lhes resta), para interromper o diálogo abruptamente e sensacionalisticamente. Ridículo, como toda tentativa de dialogar com fascistas.

Uma ressignificação simbólica bem feita, não se assenta na comparação tosca e no “você também faz isso”. Ao tentar igualar ambos personagens históricos, o fascista dá a impressão de que está rebaixando Ché, quando na verdade ele está se apoiando na estrela, para elevar seu herói pessoal de bandido psicopata, a alguém da mesma envergadura de um herói revolucionário.
Para desconstruir um personagem histórico, é preciso que sua herança, seu legado, tenha perdido sentido e valor. Quando vemos a herança dos heróis revolucionários da esquerda, o que fica claro, é que seus inimigos eram assassinos e torturadores ainda piores, eram os inimigos da massa, que não se uniu à toa a essas pessoas, no objetivo revolucionário.
Ustra, ao contrário, torturava e matava estudantes que participavam de grupos comunistas de combate à ditadura no Brasil. Tais grupos eram minoria absoluta na sociedade, filhos da burguesia, com pouca penetração no debate público. Ainda que tais estudantes fossem capazes de se organizar e quiçá causar um abalo na superestrutura da ditadura, quando um fascista diz que “só os bandidos comunistas eram torturados” ele oculta o fato de que não devia haver uma ditadura para começo de conversa. Os temidos comunistas, como qualquer ideologia política, deviam sim, ser submetidos ao crivo democrático do voto. Em suma: deixar que o povo decidisse os rumos de sua história.
A ditadura, regime de terrorismo de Estado, regime de Estado de exceção, imposta a toda sociedade, transformou em bandidos aqueles que tinham uma visão política diferente. Cegou e calou a sociedade para o debate e a conformidade das divergências através do livre exercício do pensamento e do voto. Uniformizou a sociedade brasileira para que todos aqueles que se destacassem como diferenciados, pudessem ser exterminados.
Ustra não foi um psicopata torturador isolado. Todo o regime ditatorial, todos os envolvidos assim o foram: sociopatas.
E antes que um fascista me diga que também foram ditaduras os comunistas soviéticos ou Cuba, eu respondo: não fuja do assunto, estamos falando do Brasil, da nossa história, da nossa herança e das consequências que enfrentamos até hoje, o que inclui todos os fascistas desumanos que agora saíram do armário para bradar novamente suas palavras de ódio.
Uma sociedade que não tem vergonha de um capítulo tão horrendo de sua história, é uma sociedade fadada a repeti-lo. Espero estar errada sobre isso, por isso faço um apelo a todos que lerem este artigo: não permita jamais que um fascista lhe cale!
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