ESCOLA SEM PARTIDO, PARA PARTIDO SEM ESCOLA pt.2

A afirmação do professor Leandro Karnal de que “Tudo é política” vem criando caos no chorume da direita. Porque segundo os “jênios”, “ninguém está preocupado, quando está no banheiro, se está mais à direita, ou à esquerda da privada”. Em suma, o que querem dizer demonstra uma confusão típica de quem não frequentou direito as aulas de Sociologia da faculdade. Afinal o que é política?

Tudo é política e isso não é uma frase fácil, mas o resultado de uma reflexão profunda. O ser humano é coletivo e cultural. Toda a sua produção existe em coadunação. Ao longo do tempo e do espaço, ferramentas produtivas, soluções engenhosas, expressões de afeto, até mesmo o ato de alimentar os próprios filhos (e tudo o mais que você quiser pensar) é fruto da obra de uma multidão de indivíduos.

Compreenda que você não é uma ilha. Você habita um lugar específico no tempo e no espaço, mas ao seu redor, antes de você (bem antes) e bem depois que você se for, há ecos de outras pessoas que viveram e nos legaram desde a linguagem, até nossos próprios genes.

A somatória das ações individuais e em grupo, formam o caldo político no qual todos nós estamos inseridos. Assim, das roupas que você usa (e o próprio fato de ter que usá-las), até os alimentos que você consome, tudo, absolutamente tudo, foi coletivamente construído e compartilhado por formas alinhavadas pelo que chamamos de Política. Em sociologia sabemos distinguir cultura, de política, de economia, mas tais conceitos são praticamente indivisíveis. Se for preciso optar por um deles para explicar o todo, certamente este seria a Política.

A política partidária  é apenas uma das expressões da Política, com “P” maiúsculo. É, digamos, a vertente administrativa da sociedade. Os partidos são formas contemporâneas de aglutinar idéias, que refletirão todo o caldo político e cultural da sociedade que representam. Assim você verá num partido, pautas sobre assuntos diversos, que vão da administração da coisa pública, até ideologias, sobre como o mundo deverá ou deveria ser, mas podemos dizer que a política partidária é principalmente administrativa.

Confundir Política (sentido ontológico) com política (administrativa), é erro primário.

Quando Leandro Karnal diz que “Tudo é Política”, não é ele quem está dizendo, mas muitos filósofos, sociólogos e pensadores que vieram antes dele. Tudo é Política. Há exceções? Sim. Chamamos isso de vida privada, foro íntimo, consciência, alma… mas mesmo aí você encontra tentáculos e construções da grande Política. Quando um marido sai para trabalhar e a esposa fica em casa, não há nada que determine ser este um comportamento natural da espécie humana: isso é uma construção cultural, permeada de Política, ou seja, permeada por séculos e séculos de negociações, voltas e reviravoltas da História.

Houve um tempo em que algumas sociedades eram matriarcais. Houve um tempo em que os grandes deslocamentos humanos geraram guerras, onde as mulheres precisaram da proteção masculina. Houve um tempo em que a idéia de um ser supremo se impôs sobre a realidade e ditou o lugar da mulher na sociedade… Tudo isso é Política, é conflito, é negociação e gera hábitos, costumes que chamamos de cultura.

Até no sexo, é possível notar a Política.

Engana-se quem pensa que a Escola dos Annales trouxe uma nova história meramente decorativa e isenta de Política. Georges Duby em sua coletânea de artigos de diversos historiadores da Nova História, chamada História da Vida Privada, fala por exemplo do homossexualismo na Roma Antiga.

A vida privada dos senhores abastados romanos, não importava para a política, desde que o senhor de escravos e terras, não fosse o submisso da relação , porque isso era considerado sinal de fraqueza. Um homem podia deitar-se com rapazes, sem que isso fosse visto como algo anti-natural, ou depravado. Era comum e até desejável em certas situações, pois o sexo entre homens e mulheres podia gerar união estável, filhos e acabar modificando o status do senhor no mundo político.

Podemos imaginar como devia ser angustiante para dois homens, terem de viver na vida privada das alcovas, o reflexo da idéia política de liderança baseada na disciplina quase militar dos sentimentos? De que o sexo era apenas um prazer e que não devia gerar afeto, porque isso deslegitimaria politicamente ao senhor? Daí que quando um senhor se apaixonava por seu escravo sexual, por seu “criado”, era hora de dizer adeus…

O prazer feminino foi algo igualmente permeado pela Política. As mulheres “casáveis” tinham de ser virgens e uma vez casadas, deviam manter-se castas, o que significava, não demonstrar prazer sexual, sob a pena de serem repudiadas por seus maridos,e viverem a vergonha social de serem apenas companheiras “decorativas” (para usar uma expressão super na moda). Quem ditava essas regras era um misto de religião, política, cultura e sociedade.

Assim, a noção de que Política é um assunto necessariamente partidário, é só uma interpretação rasa. A partidarização da Política é um fenômeno moderno e quando falamos em política, podemos separar aquilo que é Político, daquilo que é partidário. Quando dizemos por exemplo, que estamos vivendo um Golpe de Estado, estamos falando em Política e não em partido, porque todo o sistema democrático está em perigo. O mandato de um presidente é legitimado pelo processo do voto. Se por algum motivo este processo é interrompido, e durante os quatro anos de vigência da legitimidade das urnas e o presidente é deposto à força militar, ou à força de distorções legais, não existe só o problema do partido, que está sendo alijado de um direito conquistado, mas também e sobretudo, há um abalo na coesão conferida pelo contrato social (o consenso fundador desta sociedade), de que a democracia (e só ela) é o sistema de legitimação da política administrativa. Quando dizemos que a presidente Dilma deve ser reempossada porque foi eleita (duas vezes) e as acusações que pesam sobre ela não puderam ser cabalmente demonstradas, estamos falando em Política não em partido.

É a Lei.

Só não entende isso, quem está habituado a distorcer fatos e argumentos, a ignorar as leis e agir criminosamente.

Então é possível uma escola sem partido? Uma escola que separe a Política da política partidária?

Se você professor quiser, pode atuar em sala de aula fazendo essa distinção e suprimindo aquilo que é partidário, mas sempre haverá um momento em que isso virá à tona. Seja porque pessoas politizadas fazem escolhas ideológicas que afetam suas visões de mundo, seja porque o ambiente escolar é um ambiente de aprendizado sobre o mundo e nele cabem todas as questões.

E se o professor não quiser?

É melhor então que ele seja um partidário fervoroso, que não esconda sua preferência de ninguém. Nada mais confuso para a formação de um aluno, que um político partidário insidioso, que finge ser neutro e isento de paixões, mas que subliminarmente impõe conceitos (e preconceitos) muito pessoais. Como um aluno imaturo poderá identificar um conceito político insidioso e debatê-lo à luz das próprias escolhas?

Já um professor que se declara partidário de tal partido, porque assim o quer, um professor que chega mesmo a militar pelas causas em que acredita em sala de aula, exerce influência sobre os alunos até o ponto em que tais idéias se chocam com outras. Não existe um só professor na vida dos nossos jovens e cada pessoa tem uma visão política partidária particular, que está relacionada à sua própria experiência de vida.

É possível uma escola com professores politicamente neutros?

Jamais.

Ainda que o professor faça a distinção entre Política e partido, ele próprio tem suas crenças e convicções e não pode forçá-las a favor de ideias com as quais não concorda por princípio. É natural. Não se pode exigir de um cidadão, que abandone sua opinião em nome de qualquer coisa. A democracia protege a opinião política dos cidadãos. Até os fascistas que são anti-democráticos por natureza, estão protegidos pela mesma democracia que atacam impiedosamente.

Frequentemente surgem questões em sala de aula que trazem à tona as convicções políticas partidárias de cada um. A Política também se faz com a política partidária. Ao estudar a Revolução Francesa é muito comum, por exemplo, que surjam discussões sobre pena de morte. Partidários irão defendê-la, não partidários irão atacá-la e a isso chamamos “debate político”. O professor terá certamente uma posição pessoal e exerce sobre os alunos uma atração de influência, mas tal coisa não é definitiva. Num mundo politizado, debates e mudanças de posicionamento ocorrem com frequência. É tolice acreditar que a opinião do professor é como lei, que se cristaliza eternamente no cérebro dos alunos.

O professor também é responsável pela conscientização Política e pelo debate político. Se queremos que partidos nos representem ( e até o presente momento não existe outra forma de representação legítima) precisamos fomentar o debate Político e político-partidário. Não há formação de novas lideranças se não houver debate. Aliás, a falta deste debate é que gera a falta de participação popular nos partidos, que por fim geram castas políticas compostas sempre dos mesmos quadros, que passam a nos “representar” quase como “monarquias hereditárias”, sem espaço para ares novos, nem novas lideranças.

O ambiente escolar é o ambiente perfeito para o debate político. É ali que se deveria aprender a distinção entre Política e política partidária. A escola é um ambiente de testes e ensaios, onde os alunos além de aprenderem, coabitam um mesmo espaço e precisam negociar regras, disciplinas e conflitos, vivenciando o princípio da cidadania. A política se vê na própria relação entre os estudantes. Escola sem partido, ou sem Política é uma falácia! É mais que isso: é uma ameaça perigosa à liberdade.

Aqueles que estão sendo levados a crer que a Escola não é o espaço para o debate político partidário, que idéias políticas partidárias tolhem a liberdade, estão sendo levados ao equívoco. Pense em como os proponentes deste projeto pretendem evitar que professores professem opiniões e posicionamentos políticos? Uma vez que a lei da mordaça estiver em vigor, como isso será fiscalizado? Os alunos deverão ser proibidos de resolver dúvidas sobre o atual caos político? Como? O professor deverá reprimir expressões políticas, debates, a si mesmo? Como? É a polícia quem fará a vigilância? Serão os pais? E se um pai for contra a leitura de Karl Marx, mas outro pai apoiar? Quem decidirá? Qual dos pais tem razão?

Já existe uma instância que decide quais as pautas socialmente importantes na educação. Ela se chama Academia, que é a instituição responsável pelo conjunto do saber socialmente construído, ratificado pelo método científico, submetido ao crivo do colegiado que é livre para questionar.

Essa Academia não exclui a liberdade de opinião da sala de aula, pode no máximo orientar o bom senso nos professores, que em geral, também estão submetidos a outras políticas, tanto de Estado, quanto internas do ambiente escolar, mas que não podem pretender deslegitimar o conhecimento adquirido na instância Acadêmica, sob a pena de se tornarem dogmáticas.

Assim sendo, tentar esvaziar a política das escolas, é tentar impor a mordaça por meios ainda indefinidos e certamente ilegítimos frente aos principios científicos e democráticos. Ao contornarem a instituição Acadêmica, como o lugar onde tais pautas são formuladas, ao negarem a liberdade do debate livre de idéias e opiniões no ambiente escolar, o “Escola Sem Partido” torna-se dogmático e por definição, doutrinador.

Não existe tirania pior do que aquela que tenta se impor sobre o próprio pensamento. Não existe remédio mais eficaz, contra um professor abusivo, que a liberdade de debate e associação. O ambiente escolar não é frágil, se respeita o ideal do desenvolvimento intelectual, que implica na liberdade de pensamento e opinião.

Se os pais é quem devem pautar o que pode ou não ser dito em sala de aula, sugiro então que se extinguam com todas as escolas. Passemos a ser educados apenas no ambiente familiar, para que os conflitos políticos e partidários entre pais e filhos, entre pais e escolas, entre escolas e professores não sejam considerados culpa destes últimos, que são apenas uma peça na engrenagem Política. Garanto que isso não resolveria o problema, ao contrário, em alguns séculos estaríamos de volta ao tempo em que só os sacerdotes sabiam ler e escrever, como no século VIII, antes de Carlos Magno resolver ressuscitar as Escolas.

O projeto da “Escola Sem Partido” abre um espaço enorme para aproveitadores e oportunistas que em nome de uma “sanitarização” da Escola, propõem uma seleção curricular e de equipe, segundo suas próprias convicções políticas! Essa proposta é em si partidária e de uma visão ideológica onde as relações Políticas podem ser torcidas pela força para se adaptarem às vontades de um grupo que não aceita a conformação social de mão dupla, democrática.

Para haver liberdade de pensamento e escolha, é preciso haver informação.

À parte aqueles que são maus caráteres e estão embarcando nessa onda de escola sem partido por pura má fé, os puramente crentes (de boa fé) neste ideal deveriam refletir melhor sobre a liberdade para fazer escolhas, num mundo em que as opções foram abolidas do cardápio político e dos locais onde o debate deveria ser realizado?

A Escola deve ser Política .

Tudo é Política.

infeliciânus

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